Grupo de jovens se perde na floresta. Munidos de câmeras, gravam imagens. Nunca mais são encontrados, mas suas filmagens, sim. Alguém (a polícia? um diretor de cinema? um alienígena?) as monta numa ordem aparentemente lógica e lança-as como um filme no cinema. Não estamos no longínquo 1999, vendo A Bruxa de Blair, mas no presente século XXI, quando chega aos cinemas a produção nacional Desaparecidos, de David Schurmann – diretor de O mundo em duas voltas, sobre uma expedição marítima realizada por sua família no final dos anos de 1990.
Para entender a razão de ser de Desaparecidos, é preciso olhar um pouco para trás: Schurmann explica, no material de imprensa, que este é um projeto de transmídia sobre a constatação de que "a geração Y não se questiona! O que está na internet é real: basta checar em duas ou três fontes e é validado". Ou seja, a ideia era levar o filme aos cinemas como algo verdadeiro. Um diálogo que teria começado, supostamente, em redes sociais, nas quais os personagens teriam perfis. Mas só uma pessoa que passou os últimos anos isolada do mundo iria comprar como verdadeira uma ideia como essa.
Desaparecidos já começa um tanto equivocado em sua concepção, fazendo pouco da inteligência do público. Quer dizer, um grupo de jovens desaparece em Ilhabela (litoral de SP) e não sai uma linha no jornal, uma matéria na televisão? Apenas alguém (sabe-se lá quem) consegue as imagens que essas supostas vítimas captaram e as edita num filme para cinema? Não faz lá muito sentido.
Deixando tudo isso de lado e concentrando-se apenas no filme, Desaparecidos continua sendo um equívoco, que beira o nível do insuportável. Em pouco mais de uma hora, seis adolescentes, quase adultos e ainda assim infantilizados, são capazes de levar o público à loucura com sua burrice e histeria. Eles são interpretados por Charlene Chagas, Pedro Urizzi, André Madrini, Fernanda Peviani e Adriana Veraldi.
Cinco deles partem de São Paulo para uma festa em Ilhabela. Todos recebem do anfitrião uma câmera digital que penduram no pescoço. Não existe um motivo muito claro para isso. A impressão que dá é de que Schurmann e seu corroteirista, Rafael Blecher, não conseguiram inventar uma boa desculpa para explicar essas câmeras e contam com a boa vontade do público. Mas é preciso um excesso de boa vontade para aturar Desaparecidos – vergonha alheia também vem à mente.
Não há bem um enredo, por assim dizer. Acompanhamos a histeria desses jovens – todos muito comuns e sem graça para que sequer registremos alguma particularidade deles, ou, ao menos, o nome. Dá a impressão, por exemplo, de que uma delas aparece no meio do filme quando já estão perdidos na mata. Porém, aparentemente, ela partiu de São Paulo com os outros (!). Mas tudo bem, dos males esse é o menor. Seria necessário o mínimo de empatia com algum dos personagens para acompanhar o filme. Torcer para que eles sobrevivam faria algum sentido.
Quando, finalmente, as mortes começam, inicia-se a contagem regressiva para o final de Desaparecidos, que parece um tanto mais longo do que realmente é. Se A Bruxa de Blair e muitos dos seus derivados mantêm no seu fim algum tipo de mistério, a versão brazuca do subgênero entrega os pontos no final com uma rápida aparição do assassino.
Se a proposta do filme era estabelecer uma discussão entre a realidade e a ficção, Desaparecidos passou longe. O resultado começa com um pouco de humor involuntário, uma boa dose de sofrimento e culmina no enfadonho. O assassino podia ser um tanto mais eficiente e o filme, um curta. Nossos ouvidos agradeceriam.
