04/06/2026
Documentário

As praias de Agnès

No ano em que completou 80 anos, a diretora belga Agnès Varda realizou este autodocumentário em que, através de fragmentos de suas memórias, com momentos marcantes passados à beira-mar, ela reconstitui pontos altos de sua vida, como sua participação na Nouvelle Vague, suas filmagens com atores como Gérard Depardieu e Catherine Deneuve e sua longa parceria com o marido, Jacques Demy ("Os guarda-chuvas do amor"), que morreu em 1990.

post-ex_7

Habitantes destes tempos de diários íntimos postados na internet e da ultraexposição do ego transmitida via Facebook, Twitter e outras mídias têm muito a aprender com a octagenária cineasta belga Agnès Varda no seu belo autodocumentário As praias de Agnès.

O filme se resume a uma grande colagem de momentos da vida de Agnès, no ano em que completou 80 anos (ela nasceu em Bruxelas em 1928). Sem dúvida, é uma biografia exemplar, pontuada de ricos momentos cinematográficos, não só dela, integrante do time inicial da Nouvelle Vague com La Pointe Courte (1955) como sua incontornável parceria cinematográfica e amorosa com Jacques Demy (que morreu em 1990).

Indiscutivelmente, o filme se constrói sobre lembranças e ausências sentidas, principalmente a de Demy, mas a vital Agnès, como é seu estilo, opta por não entregar à melancolia mais do que lhe é devido. Inicia a narrativa dizendo que, se se abrisse as pessoas, se encontraria paisagens. Dentro dela, essas paisagens seriam praias, explicando o título do documentário.

Boa parte da vida da cineasta passou-se à beira-mar, desde as férias da infância nas frias praias da Bélgica, passando por sua casa na ilha francesa de Noirmoutier, onde ela vive desde 1951, assim como um breve período passado nos EUA, na Venice Beach californiana, onde o casal Varda-Demy conheceu personagens tão distintos como os cineastas Jim McBride (de A Fera do Rock) e Zalman King (Nove e Meia semanas de Amor) e o roqueiro Jim Morrison – que é visto, anos mais tarde, visitando os amigos no set de Pele de Asno (1970), dirigido por Demy.

Por conta dessa viagem aos EUA, Agnès Varda perdeu a agitação de maio de 1968 na França. Em compensação, captou com sua câmera indícios de outras mobilizações locais, como a luta contra a guerra do Vietnã, no longa coletivo Loin du Vietnam, e o movimento dos Panteras Negras, que documentou num curta.

Um dos aspectos envolventes na cineasta é a capacidade de compartilhar fragmentos de sua vida, reencenando sonhos de infância, cenas registradas em fotos (muitas assinadas por ela mesma), episódios marcantes, ou meros detalhes que depois são recriados em vários filmes – como o citado La Pointe Courte, filmado em Sète, onde sua família viveu durante a II Guerra; Cléo de 5 às 7 (que concorreu à Palma de Ouro em Cannes em 1962); até o documentário Os Catadores e Eu (2000), em que a diretora deu vazão à sua insaciável curiosidade de coletar e colecionar objetos, debruçando-se sobre as pessoas que tiram dessa atividade o seu sustento.

Estão presentes em As praias de Agnès não só imagens dos amigos famosos com quem ela filmou, caso dos atores Catherine Deneuve, Gérard Depardieu, Michel Piccoli e Sandrine Bonnaire, como inúmeros personagens anônimos que ela imortalizou em alguns de seus filmes, como os comerciantes seus vizinhos em Noirmoutier.  

O humor é outra forma encontrada para driblar a saudade que sente de Demy e de muitos amigos que já se foram, como os atores Jean Vilar, Gérard Philippe, Laura Betti e Philippe Noiret. Agnès brinca com situações e personagens, como o colega cineasta Chris Marker, usando um personagem criado por ele para ser seu próprio alter-ego, o gato Guillaume-en-Egypte, como seu entrevistador em algumas passagens.

A diretora conversa com os filhos de Jean Vilar, além de seus próprios filhos, Rosalie e Mathieu (ele também ator e diretor de cinema) e seus netos, inscrevendo na tela um círculo íntimo que enfatiza a continuidade da vida e sua eterna transformação. As praias de Agnès é um afetivo monumento fílmico à memória sem nostalgia.

Leia também:

Agnès Varda remexe memórias em “As Praias de Agnès”

post