Quantos clichês são necessários para destruir uma boa idea? Na verdade, não muitos – a julgar pelo resultado pífio do suspense À Beira do Abismo, que conjuga um amontoado de chavões, seja nos personagens, nas situações ou nos diálogos risíveis. A trama parte de uma situação extrema – um homem na beirada da janela de um hotel em Manhattan ameaçando se jogar – para virar uma pirotecnia sem graça que, se minimamente questionada, não faz o menor sentido.
O roteiro é assinado por Pablo F. Fenjves, que em seu currículo, além de uma dezena de filmes para a televisão, registra o trabalho como ghostwriter de uma autobiografia de O. J. Simpson, If I did it, cujos direitos, por ordem da justiça, foram entregues à família de uma das vítimas assassinadas pelo esportista. Os diálogos são repletos de frases de efeito e os personagens mais parecem figuras de papelão desfilando sua função na história: o policial injustiçado, cumprindo pena porque caiu numa armadilha, interpretado por Sam Worthington (Avatar); o especulador imobiliário megarrico e inescrupuloso (Ed Harris); a negociadora-psicóloga que não conseguiu salvar seu último suicida e vive atormentada (Elizabeth Banks); a mexicana bonitona que vai ficar com pouca roupa a certa altura do filme e xingar em espanhol no final (Genesis Rodriguez); e por aí segue.
Enfim, em À beira do abismo há mais clichês do que o filme tem direito. E pouco ajuda a falta de tato do diretor Asger Leth para lidar com esse amontoado de ideias surradas. A trama principal gira em torno de Nick (Worthington), policial que está cumprindo pena injustamente, foge durante o enterro do pai e se instala no beiral de um hotel. Quando a polícia chega para salvá-lo, aos poucos ele revela seu plano para a negociadora atormentada que vê nele a chance de se redimir e voltar a acreditar em si mesma e na sua competência.
Em paralelo, o irmão de Nick, Joey (Jamie Bell), e sua namorada mexicana (Genesis Rodriguez) colocam em prática uma ideia para provar a inocência do ex-policial. É um plano que nem MacGyver em seus dias mais inspirados iria pensar com tantos detalhes nem lançar mão de tantas ferramentas e equipamentos.
Enquanto no alto do hotel está Nick e, no prédio ao lado, seu irmão e a namorada, no chão está uma repórter de televisão inescrupulosa (Kyra Sedgwick), que quer mais é que o rapaz se esborrache no chão, assim, ela terá uma tremenda matéria. A multidão agrupada ao redor do prédio também parece compartilhar desse sádico desejo.
O final, como é de se esperar, é visível a milhas de distância. E Fenjves e Leth fazem questão de não decepcionar, de não mudar uma vírgula das escolhas que seriam mais óbvias para concluir a história. Ao final, fica a decepção de ver bons atores, como Harris e Worthington, repetindo diálogos que beiram o constrangimento.
