Veterano documentarista, nascido na Bielorússia e formado em Cinema em Moscou em 1997, Sergei Loznitsa pinta o retrato mais desolador possível da realidade contemporânea nos territórios que há pouco mais de duas décadas faziam parte da União Soviética no drama Minha Felicidade – um título que é uma ironia trágica. Perto deste filme, até uma obra densa como a do austríaco Michael Haneke (A Fita Branca) parece mais leve. Afinal Loznitsa, que estudou matemática e trabalhou cinco anos como cientista, é dono de um estilo ainda mais cirúrgico e contundente.
O agente para a revelação de um universo sombrio e sem qualquer sinal de esperança é Georgy (Viktor Nemets), um jovem caminhoneiro que leva uma carga para entregar em algum ponto do interior russo. Consegue escapar do primeiro obstáculo, um encontro com dois guardas corruptos, e fica preso num congestionamento. Procurando uma rota alternativa, vai embrenhar-se por estradas sem asfalto e num beco sem saída.
O único momento de bondade acontece quando Georgy encontra uma menina prostituta (Olga Shuvalova). A reação violenta dela à intervenção bom-mocista e talvez ingênua de Georgy prepara o que vem pela frente. O próprio motorista será alvo de marginais, capazes de qualquer coisa para apoderar-se de sua misteriosa carga – que, afinal, não passa de farinha.
Georgy sobrevive a um ataque de violência, mas segue uma existência de mero morto-vivo, num ambiente em que, como num livro de Dostoievski, todos são movidos pelas pulsões mais extremas, sem limites, nem moral, mergulhados no crime e sem nenhuma preocupação com qualquer perspectiva de castigo.
Minha Felicidade se insere com força na nova e vigorosa produção recente do cinema russo (e afins), responsável por alguns dos melhores filmes vistos na Mostra de São Paulo 2011 – caso de Movimento Reverso, de Andrei Stempkovski, Sábado Inocente, de Alexandr Mindadze e Elena, de Andrey Zyangyntsev (diretor do premiado O Retorno).
