A luta de Anderson Silva contra o americano Chael Sonners, em agosto de 2010, é o centro desse documentário que acompanha o treinamento do brasileiro em terras norte-americanas. Longe da família e amigos, ele se esforça para não sentir a pressão e cair nas armadilhas do adversário, que gosta de polemizar falando mal do Brasil, entre outras coisas.
- Por Alysson Oliveira
- 05/03/2012
- Tempo de leitura 3 minutos
Quem não conhece o famoso Anderson Silva – segundo a Wikipedia, paulistano, nascido em 1975, atual campeão mundial peso médio (até 84 kg) do Ultimate Fighting Championship - vai continuar sabendo pouco sobre ele depois do documentário Anderson Silva – Como água, do norte-americano (criado na Venezuela) Pablo Croce.
No filme, o documentarista faz uma opção de abordagem bastante clara: acompanha o treinamento do esportista nos EUA, nos meses que antecedem a mais importante luta de sua carreira – em defesa do cinturão, contra o norte-americano Chael Sonners, em agosto de 2010. Acompanha-se o preparo físico de Silva – que o faz pela primeira vez fora do Brasil e longe de sua família – e as provocações do adversário, que faz comentários mesquinhos sobre o brasileiro, seu país e até sua camisa cor-de-rosa.
Mas quem é Anderson Silva? Quem é o homem – quando não está exercendo a função de lutador, de herói nacional? Bem, a resposta não está em Como água, que, apesar de correto, desperdiça o potencial carismático de seu protagonista. Ninguém pede uma cinebiografia extensiva, que comece com o nascimento, depois infância, adolescência, dificuldades na vida e triunfo. Mas um pouco mais de informações sobre o lutador não fariam mal algum.
Sabe-se que ele é casado – o filme mostra-o com a mulher, e ele mesmo comenta que ela é quem escolhe sua camisa rosa – e que tem filhos. Vemos a família numa cena, sentada em frente à televisão na casa chique onde moram. Mas como Anderson chegou até lá? Qual o motivo de apenas se concentrar na preparação para o embate que, aliás, na forma como está montado o filme, tem pouca tensão e emoção ? Mesmo que a luta tivesse sido assim quando aconteceu – o que é pouco provável –, seria possível valorizá-la bem mais na montagem do filme.
O Anderson Silva mostrado por Croce não tem o mesmo carisma e bom humor que o verdadeiro lutador – como é possível constatar em entrevistas, por exemplo. Na vida real, ele é sagaz, engraçado, tem tiradas inteligentes e rápidas. Em Como água não há nada disso – o que se vê na tela é um lutador sério, de poucas palavras, que parece estar sempre de mau humor. O filme sequer dá chance a ele de responder às provocações de Sonners, ou mesmo de seu próprio empresário, também norte-americano, que diz concordar com o que o seu conterrâneo disse sobre o Brasil: “Se você abaixar a cabeça para fazer uma reverência no Brasil, leva um tapa e roubam sua carteira”.
O que sobra é o que podemos depreender do filme. A história de Anderson é cheia de lutas – em mais de um sentido. Mas para se saber quais são elas, é preciso recorrer a outros meios. Ele é um herói nacional, disso não há dúvidas, mas o que faz dele esse herói? O que pensa ele? Em quesitos como esse, Como água não entra. No fundo, o documentário é um filme para quem quer ver apenas pancadaria num ringue. O que talvez não faça justiça ao atleta, que, na soma das partes, é bem maior do que aquele que está batendo e apanhando.
