Intercalando imagens dos anos 40 e 50 - apresentações de Nelson em sessões de gravação, shows e programas de rádio - com cenas interpretadas por Borges e Júlia, o diretor Elizeu Ewald traça a trajetória do ídolo popular desde sua infância até os últimos dias de vida, passando pelo conturbado período em que praticamente arruinou a carreira, mergulhado nas drogas.
Embora repleto de cenas históricas garimpadas em arquivos, saborosas para os fãs e até para as gerações mais novas, o formato escolhido pelo diretor despojou a história da dramaticidade e emoção esperadas de um personagem como o de Nelson Gonçalves, cuja vida realmente tem farto material para um filme.
Várias entrevistas, feitas com o compositor Adelino Moreira, os jornalistas Albino Pinheiro e Sérgio Cabral e produtores musicais, enfatizam a importância da obra de Nelson Gonçalves para a música brasileira e revelam histórias pitorescas do cantor. Mas muitos dos fatos que se conhece da vida do personagem, encampados pela produção, foram recentemente desmentidos numa biografia não autorizada do ídolo escrita por Marco Aurélio Barroso. Ele conta que o próprio Nelson incentivava a divulgação de histórias fantasiosas sobre seu passado.
Um exemplo citado pelo escritor é o de que Nelson não cafetinava mulheres na Lapa boêmia do Rio no início da carreira, como mostra o filme. Na verdade, o que ocorria era o contrário, com o cantor sendo explorado pelas mulheres.
Segundo o autor da biografia, intitulada A Revolta do Boêmio (vendida somente pela Internet, através do e-mail [email protected] ), Nelson criou um personagem que cabia muito bem nas necessidades da imprensa. "Era um caso típico de me engana que eu gosto para os dois lados", revelou em entrevista ao Jornal do Brasil.
Outro episódio recriado no filme e desmentido pelo livro tem a ver com o método usado pelo cantor para se livrar da cocaína. No filme, Nelson se tranca num quarto e sofre valentemente os efeitos da abstinência, recebendo diariamente um prato de comida por baixo da porta. Segundo Marco Aurélio Barroso, Nelson abandonou as drogas pelos métodos tradicionais, reduzindo as doses gradativamente.
Ao comprar a versão das muitas lendas sobre Nelson Gonçalves, o diretor Elizeu Ewald acabou reproduzindo de forma modesta a vida do personagem e deixando de apresentar ao espectador versões mais polêmicas e mais próximas da realidade. É o preço a ser pago quando o objeto das pesquisas é uma figura tão notória e amada pelo país sobre quem já foi escrita a palavra definitiva em sua lápide.
Cineweb-22/3/2002
