É surpreendente como um poema melancólico cantado ao longo do filme estabelece de forma certeira o tom nesse drama iraniano, que busca sua inspiração naquele tipo de cinema despojado, atuado por não-profissionais no qual realidade e ficção acabam se sobrepondo. Para isso, o diretor Rafi Pitts se vale de atores amadores, desempenhando seus trabalhos habituais no ambiente em vivem.
As intenções minimalistas reverberam com força quando bem usadas – o que é o caso aqui. A trama começa com Mokhtar (Ashem Abdi) deixando sua mulher, Khatoun (Mitra Hadjar), e a filha, (Zahra Jafari), para procurar emprego em outra cidade – essa é a única esperança da família para superar a pobreza. Mais tarde, ela recebe a notícia da morte do marido.
O caminho dela se cruzará com o de Marhab (Ali Nicksolat), mecânico que espera algo mais para a sua vida. Quando ele vê Khatoun, começa a segui-la e estabelece-se uma relação delicada entre os dois. Contraponto entre Marhab, que fica, e o falecido marido, que imigrou, o filme explora o conflito de uma geração dividida entre ficar em seu país ou sair em busca de futuro mais promissor.
Baseando o roteiro num romance de Mahmoud Dowlatabadi, Pitts reduz o filme ao essencial. Não há um diálogo, uma cena ou, sequer, um gesto que esteja sobrando ao longo de seus 80 minutos. A fotografia privilegia a natureza que, aqui, é opressora com seu inverno que parece não cessar.
