03/06/2026
Comédia

Bienvenido, Mr. Marshall

No pós-guerra, o prefeito da pobre vilazinha Villar del Rio, don Pablo, toca sua rotina, assim como os moradores locais, encarando a falta de chuva e a indiferença do governo central. Quando chega a notícia de que os norte-americanos vêm chegando, a comunidade organiza uma festa e se prepara para fazer seus pedidos e faturar alguns dólares.

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O povoado de Villar del Rio é o símbolo da Espanha empobrecida, provinciana mas cheia de humanidade e humor que resplandece na comédia dramática Bienvenido, Mr. Marshall.
 
No início dos anos 50, em pleno pós-guerra, a cidadezinha vive sua modorra. Os camponeses tangem seus rebanhos, tocam suas plantações, lutando contra a enorme secura do solo. Na praça local, uma fonte é o lembrete da falta de chuvas que compromete os resultados da agricultura.
 
A maior novidade é a chegada do ônibus local – já que a cidade está fora do alcance das ferrovias, uma promessa nunca cumprida pela administração federal.  Até que um dia a rotina pasmacenta é sacudida pela chegada de um representante do poder central, avisando sobre a iminente chegada de uma delegação norte-americana – para o que Villar del Rio deve preparar-se para dar uma boa impressão.
 
Para recepcionar à altura os aguardados yankees e seus bolsos recheados de dólares para vitaminar a combalida municipalidade, o prefeito local, o surdinho Don Pablo (José Isbert), junta-se a Manolo (Manolo Morán), empresário de uma estrelinha em turnê por ali, a cantora Carmen Vargas (Lolita Sevilla).
 
Empresário e prefeito viajam à capital, endividando-se para maquiar a cidade e fantasiar seus habitantes, para apresentar-se numa festa digna de impressionar os visitantes. Os dias se passam entre ensaios e preparativos, que contam com a assessoria da professora primária, dona Eloísa (Elvira Quintillá).
 
Driblando a feroz censura franquista da época da realização do filme, Berlanga – que assina o roteiro com Juan Antonio Bardem, tio do ator Javier Bardem – passa nas entrelinhas um fino recado político, ironizando a indiferença do poder federal diante das necessidades das províncias e do povo, e também a posição humilhante de seu país, esperando migalhas de um plano Marshall de recuperação europeia do qual, finalmente, foi excluído.
 
Alguns dos melhores momentos estão na cena em que os moradores da cidade fazem sua lista de pedidos para entregar aos esperados americanos e especialmente nos sonhos de alguns dos personagens – como os do padre (Luis Pérez de León), que se imagina alvo de um tribunal da Klu Klux Kan, e do prefeito, que se vê como um pistoleiro num saloon de faroeste.
 
A saborosa narração, que apresenta os personagens e comenta a ação, é do conhecido ator Fernando Rey – intérprete de filmes de Luis Buñuel, como O Discreto Charme da Burguesia (72) e Esse Obscuro Objeto do Desejo (77). Se em alguns momentos, essa narração parece excessiva - o que era uma marca da época -, não é difícil imaginar que pode ter sido uma esperteza para driblar os censores.
 
Muito bem-restaurado, o filme é uma das atrações da mostra O Realismo do Cinema Espanhol, programada para setembro de 2012, no MIS paulistano.
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