Quem achou Jean Dujardin engrançadinho, carismático e até fofinho em O artista talvez não conhecesse a carreira pregressa do ator – com filmes como Agente 117 - Rio Não Responde Mais, uma sátira francesa aos filmes de James Bond. Em Os inféis”, que estreia nessa sexta-feira, o ator parece estar mais à vontade, numa comédia sobre infidelidade, cujo humor se assemelha ao nível de televisivos como “Zorra Total”.
Este é um longa composto de episódios, dirigidos por vários diretores protagonizados pelos mesmos atores – Dujardin e Gilles Lellouche (Até a eternidade), que interpretam diversos personagens, sempre com o tema da infidelidade. Filmes nesses moldes geralmente são repletos de altos e baixos, bons momentos se alternando com outros nem tanto. Esse, porém, é uma exceção: não há nada que o redima, nem boas histórias, bons personagens ou interpretações. Tudo se resume a humor grosseiro e moralismo barato – que vai na onda reacionária que parece assolar o mundo contemporâneo.
No primeiro segmento, Dujardin ajuda Lelouch a mentir para a sua mulher, e quando os dois caem na noite, a diversão termina em sexo casual com duas conhecidas no mesmo quarto de hotel. É um episódio curto, mas que já serve para estabelecer o tom do filme. A partir de então, seis diretores (que inclui os dois protagonistas, e Michel Hazanavicius , de O artista) discutem o papel de uma traição dentro de um casamento.
Pequenas cenas acontecem com outros homens entre um episódio e outro. Nelas, Guillaume Canet joga o cachorro pela janela enquanto o animal masca o preservativo que o dono usou com uma amante antes de sua família chegar em casa. Em outro momento, Manu Payet, numa relação sadomasoquista, espanca até a morte uma mulher mais velha no balanço de seu filho pequeno – tudo isso porque, quando criança teve de dividir a atenção da mãe com os irmãos.
Todos mais tarde irão se encontrar em um grupo de ajuda para homens infiéis, coordenado por uma mulher (Sandrine Kiberlain), que, na maioria do tempo é o estereótipo que todo machista faz de uma feminista – histérica, simplesmente porque não faz sexo, o que falta em sua vida é um homem. Esse é apenas mais um dos segmentos sem sentido ou graça que compõem essa confusão em forma de filme. E nesse acontecem algumas das bobagens maiores do longa: a tentativa de explicar, numa psicologia barata, os personagens e seus impulsos.
O mais longo deles, e que teria algum potencial, é dirigido por uma mulher, Emmanuelle Bercot, e traz Dujardin e sua esposa na vida real, Alexandra Lamy, num DR tão chata quanto previsível. A questão que eles levantam é: todo casal precisa trair, do contrário o casamento e – porque não o amor? – acaba. A discussão se prolonga, verdades e mentiras são ditas e fica tudo nebuloso: qual é qual? Mas, a essa altura do filme, será que esse tipo de artifício narrativo tem algum valor?
Quanto a Dujardin. Ele estava ótimo em O artista – mas é só. Seu Oscar parece ter mais a ver – e Os infiéis pode ser um bom indício disso – com o momento do filme do que com sua performance em si. Michael Fassbender estava bem melhor em Shame, e nem indicado foi – mas, claro, esse não é um filme engraçadinho louvando feitos norte-americanos. Alias, em questão de infidelidade e impulso sexual, cinco minutos desse filme tem mais a dizer do que Os infiéis inteiro.
