21/07/2026
Documentário

Onde a coruja dorme

Documentário recorda a trajetória do cantor e compositor pernambucano, radicado no Rio, Bezerra da Silva (1927-2005), famoso por canções como "Se gritar pega ladrão" e "Sequestraram minha sogra".

post-ex_7
O jeito malandro foi sempre a marca registrada do cantor e compositor Bezerra da Silva (1927-2005). Era seu tipo de humor, mas não se tratava de uma mera piada, nem de recurso de marketing. Pessoa simples, sem banca e de percepção afiada, o pernambucano radicado no Rio desfrutava da intimidade dos habitantes comuns do morro. E, ao invés de meramente retratá-los nas letras de suas músicas, convivia com eles e costumava revelar os sambas que eles faziam – ainda que tendo profissões como técnico de geladeira, encanador, carteiro ou removedor de cadáveres.
 
O documentário Onde a Coruja Dorme torna-se, assim, o veículo para transmitir essa espécie de filosofia de trabalho comunitária de Bezerra, definindo o território de sua inspiração sem pose. Por essa convivência estreita com personagens como Tião Miranda, Pedro Butina, Claudinho Inspiração, além de parceiros como Walmir da Purificação, 1000tinho e Adezonilton – todos entrevistados no filme -, esboça-se uma postura irônica e pragmática diante da vida como ela é, onde são frequentes figuras como o malandro, o otário, o valentão, o alcaguete da polícia.
 
Essa intimidade com a vida real nos morros cariocas não rendeu apenas a merecida popularidade ao intérprete de canções debochadas como Se gritar pega ladrão, Cobra Criada e Sequestraram minha sogra. Muitas vezes, Bezerra também foi tachado de “cantor de bandidos” e acusado de fazer em suas letras “apologia à bandidagem”. Músicas como Tem Coca aí na Geladeira, Overdose de Cocada e A Fumaça Já Subiu pra Cuca, afinal, revelavam que ele não era nem fingia ser santo. Por conta disso, teve lá seus problemas com a polícia, compartilhando a sorte de tantos de seus amigos e parceiros.
 
A personalidade marcante de Bezerra é recuperada em expressivo material de arquivo, em entrevistas nas quais ele deixa claro sua consciência de quem é e do que fazia muito bem, ser autêntico. O compositor esnobava a intelectualidade, garantindo que, devido ao domínio de uma linguagem cifrada no morro, se quisesse, ninguém entenderia seu jargão. Era um dos poucos a conhecer por dentro a língua secreta do povão.
 
Dentro do humor aparentemente inesgotável, ainda que diante dos tropeços e reviravoltas da sorte, ele demonstra também uma certa amargura. “Amor, nunca tive. Mas, como todo mundo, fui corno e tive sogra”. Típica filosofia bezerriana.
post