Essa esperteza no roteiro, aliada a uma condução de câmera intimista, que deixa o espectador junto do coração dos personagens, são os grandes trunfos desta estréia na direção da atriz e roteirista francesa Agnès Jaoui - vista na tela no papel da desinibida garçonete Manie. Virando do avesso as expectativas e preconceitos de um pequeno grupo de pessoas numa cidadezinha do interior da França, ela faz humor com elegância e cria um filme com aquele típico tempero francês de outros tempos, afiado nos diálogos, afinado nas interpretações - uma característica, aliás, que costuma distinguir filmes dirigidos por atores.
Arrastado ao teatro pela mulher, o empresário Castella (uma esplêndida criação do ator e co-roteirista Bacri) começa a flertar com uma outra vida. Bitolado e avesso à cultura erudita, ele foi ver a sobrinha atuar numa participação minúscula, mas enxerga algo diferente na protagonista no palco, Clara (Anne Alvaro). Por coincidência, dias depois, é a mesma Clara quem comparece ao seu escritório para dar-lhe aulas de inglês - a temporada da peça acabou e ela está garantindo a sobrevivência numa segunda profissão.
Histórias paralelas envolvem a garçonete Manie - que é amiga da atriz-professora - o motorista e o segurança do empresário. Beatrice (Brigitte Catillon), a costureira do teatro, também faz parte desta turma, que se freqüenta, se apaixona e fala sobre a vida e a arte. Repetindo no título brasileiro o mesmo duplo sentido do original francês, este "gosto" que ocupa o centro da história refere-se tanto à fruição estética da arte como à maneira peculiar de cada ser humano saborear a própria vida.
Somando uma eterna leveza à sua discreta sofisticação, o filme o tempo todo repropõe chavões de comportamento e correção política. Um fator de equilíbrio vem de todos os personagens serem igualmente ricos em nuances, defendidos por atores que os revestem de uma verossimilhança admirável, natural como se a câmera os surpreendesse no próprio cotidiano. A inspirada cena da flauta que fecha a trama é uma sadia metáfora para a idéia de que tudo, na vida, é uma questão de achar o fôlego e o ritmo certos. O filme de Agnès Jaoui o encontrou.
Cineweb-25/1/2002
