Poucos movimentos culturais no Brasil polarizaram tantas ideias e posições e têm permanecido tão influentes quanto o Tropicalismo. A onda de renovação capitaneada na música por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tomzé e os Mutantes ganha mais um documentário, Futuro do Pretérito – Tropicalismo Now!, assinado por Ninho Moraes e Francisco César Filho.
De várias maneiras, este filme dialoga com um outro recente, Tropicália, de Marcelo Machado, que investiu mais fundo na direção da pesquisa e do resgate das imagens de quarenta anos atrás - muitas inéditas -, inserindo no contexto da grande criatividade do movimento a drástica intervenção da ditadura de 1964 – que rasgou o ímpeto daquele movimento, como de tantas outras urgências e efervescências culturais e políticas de então.
Entretanto, o objetivo de Futuro do Pretérito – Tropicalismo Now!, é bem diferente do filme de Machado. O trabalho assinado por Moraes e César Filho procura tomar o pulso do presente, identificando aonde prosperou a atitude tropicalista de acelerar misturas, incorporando ritmos tradicionais brasileiros e tendências pop estrangeiras num contexto contemporâneo, em que a própria tecnologia amplia a possibilidade deste remix cultural e rediscute as fronteiras da autoria e da propriedade intelectual.
O documentário organiza-se em torno de um show com direção musical de André Abujamra, realizado muito apropriadamente no Teatro Oficina de São Paulo – endereço de onde emanaram também alguns dos ventos de rebelião que marcaram o ideário tropicalista, que adotou como um de seus pais o mesmo Oswald de Andrade que teve ali remontados alguns de seus textos mais viscerais e antropofágicos, como O Rei da Vela.
Ele mesmo um filho do Tropicalismo, Abujamra reveste de ritmos africanos e búlgaros algumas das criações musicais mais identificadas com o movimento, como a caliente Soy Loco por ti, América. Outros cantores, como Luiz Caldas e Suzana Salles, complementam as releituras musicais, com participações intercaladas por atuações de Gero Camilo, Helena Albergaria, Carlos Meceni e Alice Braga.
Nesse enfoque multiartístico, fica mais claro o que o compositor e professor José Miguel Wisnick chama de “especialidade do Brasil, recombinar diferenças” – uma forma mais límpida de esclarecer nosso bom e velho sincretismo.
Ousando, o filme até especula se Gilberto Gil no ministério da Cultura não foi o Tropicalismo no poder. De todo modo, Gil vem se mostrando um sábio do movimento, em seu próprio show recombinando ritmos e filosofando: “Os tempos precisam conviver”. Pelo menos, agora há liberdade para que isso aconteça.
