Uma família parte para uma corriqueira viagem de final de semana. Os pais procuram sair da cidade como forma de escapar da rotina exaustiva de trabalho que aquele espaço remete. A criança, por sua vez, já está cansada deste hábito semanal e não quer mais participar daquela fuga da realidade. É esta imagem que compõe as primeiras cenas de Na Ponta dos Pés, segundo longa de Olivier Ringer que discute a questão da incomunicabilidade dentro de uma das instituições mais importantes da sociedade, a família.
Não é à toa que, em cerca de 90% desta produção franco-belga, tudo que o público ouve são os pensamentos de Cathy (Wynona Ringer, filha do diretor), até porque a menina não tem com quem falar. Nas primeiras cenas dentro do carro, não há nenhum tipo de conversa do casal com a própria filha. Ela apenas tenta se distrair da longa viagem de Paris à casa de campo, reparando nos tiques nervosos do pai ou jogando no seu Nintendo DS – e “conversando” com os personagens do game – até acabar a bateria.
Durante o final de semana, os adultos somente chamam o nome de Cathy para que a garota execute as tarefas que lhe são pedidas, como almoçar. Mas quando ela não está com fome e resolve não participar da refeição, o lugar vazio na mesa não incomoda os pais dela. A cena soma-se a outras que alimentam dentro da menina o sentimento de invisibilidade.
Chega, então, o momento em que ela resolve concretizar o que parece claro em sua cabeça. Agora é Cathy quem resolve fugir daquela realidade, com o objetivo de, finalmente, se tornar invisível para os pais.
O curioso é que o primeiro lugar em que ela se esconde é em uma casinha de cachorro, justamente o animal de estimação ao qual muitos humanos dão maior atenção e carinho do que a seus semelhantes – ou até mesmo seus descendentes.
Depois, a criança parte para a floresta, onde tem de apender na marra a superar as condições adversas daquele ambiente. Porém, não espere uma aventura à la Robinson Crusoe e sim uma luta solitária pela sobrevivência como a de Tom Hanks em Naufrágo (2000). Nesse período, ela desenvolve uma grande intimidade com a natureza que a cerca, criando uma relação paternal de amor e zelo – aquela que não recebe dos próprios pais – com os seres vivos, a exemplo das “sementes mágicas”, do peixe que ela decide não comer e do lobo que resolve não devorá-la.
Apesar de assistirmos a tudo através do olhar da menina, este não é um filme “Sessão da Tarde”. Com seu tom reflexivo, o longa não se propõe a entreter crianças da idade de Cathy; provavelmente, as deixaria entediadas. O seu alvo é o oposto.
O ponto de vista dela, no qual não é possível identificar os pais dessa garota, se propõe a isso. A câmera baixa, os planos laterais e contraplanos trazem silhuetas, mas não mostram detalhes dessas figuras quase etéreas. Ao filmar assim, Olivier Ringer materializa essa distância entre eles e a protagonista e cria uma identificação: a do espectador com estes pais ausentes.
Ao colocar-se no lugar deles, o público não só percebe que comete erros semelhantes aos dos personagens adultos, como também pensa, igual à Cathy, que o melhor seria não crescer e ser eternamente criança.
