O filme cobre um período de mais de 20 anos. A relação entre Lucien (Jean-Pierre Darroussin), um operário do norte da França, e suas duas filhas torna-se mais estreita com a morte da esposa e mãe, vitimada por um câncer. O homem sente-se completamente perdido sem a mulher e agarra-se às filhas como se fossem a tábua de salvação emocional de que precisa.
A vida dos três segue tranqüila até as meninas chegarem à adolescência. O pequeno e confortável mundo que construíram até ali começa a ser ameaçado por fatores externos - chegou a hora dos amigos e futuros namorados. Lucien, numa atitude protetora que beira a um incesto nunca concretizado, vê-se ameaçado pelo despertar da sexualidade das filhas.
Numa viagem de férias, a primeira depois de longos anos, o pai flagra a filha mais jovem, Marie (Elsa Dourdet), saindo do quarto de um rapaz. Sua reação é de absoluta indignação, o que causa uma ruptura definitiva na relação entre todos. Marie passa a enfrentar o pai com atitudes agressivas, como quando resolve trabalhar com a prostituta da cidadezinha. A irmã mais velha, Suzanne (Garance Clavel), tenta reaproximar a família, assim como sua avó (Michèle Ernon). Mas os conflitos não cessam e Lucien mergulha num estado de depressão aguda.
Christine Carrière construiu um drama intimista - apesar do longo período abrangido pelo filme, o foco é apenas na família, sem nenhuma referência maior às transformações sociais do mundo - o que permite dissecar os mais profundos sentimentos vividos por todas aquelas pessoas unidas na tentativa de superar um grande trauma.
Com roteiro enxuto e elenco afinado, este filme é mais uma boa surpresa que tem, ainda, a seu favor o fato de ter participado da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 1999. Recomendado para quem não se contenta com, ou mesmo não suporta, os chamados blockbusters.
Cineweb-1/5/2002
