04/06/2026
Drama

A Memória que me Contam

No passado, Ana foi uma guerrilheira. Muitos anos depois, está no hospital à beira da morte. Seus amigos, que também foram militantes, se reúnem na sala de espera e fazem um balanço de suas vidas, seus sonhos e utopias.

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 O título do drama brasileiro A memória que me contam implica numa memória mediada, em uma narrativa que não é em primeira mão. Num primeiro momento, a questão remente à personagem Ana – interpretada por Simone Spoladore –, guerrilheira nos anos de chumbo, que agora agoniza numa cama de hospital. Ela nunca é vista no presente, apenas na memória de seus amigos, que na sala de espera aguardam os acontecimentos e relembram seu passado. Sua melhor amiga era Irene (Irene Ravache), cineasta que está fazendo um filme sobre os anos de 1960.

 
De forma sutil, a diretora Lúcia Murat – que assina o roteiro com a premiada escritora Tatiana Salem Levy (autora do romance A Chave de Casa) – investiga como o passado e o presente dialogam nas figuras dos amigos militantes e seus filhos no presente. Essa é, aliás, uma questão nem sempre muito bem resolvida no filme: a geração mais moça. Os principais personagens jovens são Eduardo (Miguel Thiré), filho de Irene, e Gabriel (Patrick Sampaio), filho de Ricardo (Otávio Agusto). Os dois rapazes formam um casal, e, ao contrário dos personagens mais maduros, aparecem como figuras menos bem delineadas do que a geração de seus pais.
 
Outro personagem que ajuda a estabelecer um contato entre o passado e o presente é Paolo, interpretado pelo ator italiano Franco Nero – visto em Django Livre e intérprete do personagem Django original nos westerns italianos. Exilado no Brasil, Paolo é acusado de terrorismo em seu país. Embora possa lembrar de imediato Cesare Battisti, o personagem é, na verdade, inspirado num grupo de italianos que se refugiaram no Brasil na década de 1980.
 
O tom de réquiem que domina a narrativa é a cerimônia de despedida de Ana, que se mescla com a percepção dos personagens sobre o fim de suas utopias e dos ideais pelos quais lutaram. José Carlos (ZéCarlos Machado), por exemplo, era membro da resistência à ditadura militar e hoje é ministro da Justiça, o único do grupo que efetivamente chegou ao poder.
 
Com esse filme, Lúcia Murat revisita seu primeiro longa, Que bom te ver viva (1988), também protagonizado por Irene Ravache, e inspirado na própria história da diretora, que foi presa política e torturada.  Irene, a personagem de A memória que me contam, poderia muito bem ser vista como a mesma pessoa daquele outro filme 25 anos mais tarde, agora com mais experiência e um tanto mais desiludida.
 
 Em A memória que me contam, Lúcia faz um retrato daqueles que no passado lutaram contra a ditadura e, atualmente, pertencem a uma classe média conformada em viver sem ilusões.
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