18/07/2026
Documentário

Onde a Terra Acaba

Documentário sobre o lendário e inacabado segundo filme de Mário Peixoto (1908-1992), o diretor de "Limite". A história da produção é recordada através de trechos do filme incompleto, depoimentos de amigos e do próprio Mário Peixoto.

post-ex_7

Mário Peixoto, o diretor de Limite (1931), uma das obras mais importantes do cinema brasileiro, ganhou uma belíssima homenagem com o documentário Onde a Terra Acaba, de Sérgio Machado. O título carrega o mesmo nome da inacabada produção que seria o segundo longa-metragem de Mário e que não chegou a ser concluído por causa de uma divergência entre o cineasta e a atriz Carmen Santos, produtora e estrela do filme.

Entre as pérolas resgatadas, estão uma entrevista do diretor ao cineasta Ruy Solberg e cenas do making of realizado pela equipe de Limite, além, é claro, de fragmentos inéditos de Onde a Terra Acaba. O filme mostra ainda o inventivo trabalho do diretor de fotografia de Limite, Edgar Brazil, e os truques usados para conseguir efeitos visuais surpreendentes para a época. Através de depoimentos e de trechos extraídos de diários e cartas do próprio Peixoto, narrados pelo ator Matheus Nachtergaele, o documentário revela um homem extremamente perfeccionista.

Mário Peixoto tinha apenas 21 anos quando iniciou a produção de Limite. Filme denso e sofisticado, não foi compreendido pelo público da época e teve apenas quatro exibições após o lançamento, em 1931. "A complexidade temática e a sofisticação narrativa renderam ao filme a injusta fama de obra hermética, acessível apenas a iniciados", escreveu Sérgio Machado num artigo.

No mesmo texto, o diretor diz que a obra, "filmada numa época em que se consolidava a transição para o cinema falado, pode ser vista como o canto do cisne do cinema silencioso por ter aprofundado experiências do expressionismo alemão, utilizando a angulação e os movimentos de câmera como reflexo da subjetividade dos personagens".

Em meados dos anos 1950, a obra foi restaurada e, já nos anos 1980, lançada em vídeo. Como é impossível dissolver toda a mitologia que orbita em torno do cineasta e do filme, Onde a Terra Acaba desvenda um pouco mais sobre essa figura tão enigmática.

Revela, por exemplo, que após o fracasso das filmagens de Onde a Terra Acaba, Peixoto entrou em profunda depressão e acabou se isolando numa rústica casa da família, na Ilha Grande. Seu projeto era ambicioso e o entusiasmo de Carmen Santos, a grande estrela do cinema mudo, fez com que mergulhasse de cabeça no projeto. Mas os inúmeros problemas ocorridos durante as filmagens, principalmente os de relacionamento com a atriz, que se ausentava do set dias seguidos, foram derrubando seu ânimo. No final, restou apenas um rolo de filme com poucos trechos gravados, principalmente testes com o elenco e cenas com os membros da equipe.

Em 2001, antes de chegar às telas, o filme de Sérgio Machado colheu várias distinções em mostras no Brasil e no exterior, como melhor documentário no Festival de Biarritz, crítica e público no Festival do Rio BR e prêmio do júri na Mostra BR de São Paulo. No Festival do Recife de 2002 ganhou três prêmios: documentário, montagem e som.

Cineweb-30/5/2001

post