20/07/2026
Documentário

Dossiê Jango

Presidente legitimamente eleito, deposto pelo golpe militar de 1964, João Goulart morreu no exílio, na Argentina, em 1976. Desde essa época, suspeita-se de que sua morte, por problemas cardíacos, poderia ter sido causada por agentes ligados à Operação Condor - uma hipótese nunca devidamente investigada.

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A menos de um ano de se completarem 50 anos do golpe de 1964, que depôs o presidente legitimamente eleito João Goulart (1919-1976), documentários estão colocando em discussão temas relevantes para um oportuno balanço de um dos episódios mais dramáticos da história brasileira.
 
Como este Dossiê Jango, de Paulo Henrique Fontenelle, que recoloca em discussão uma velha suspeita: a de que Goulart teria sido assassinado, e não morrido, simplesmente, em decorrência de seus crônicos problemas cardíacos.
 
Imagens de arquivo e entrevistas situam o perfil de um presidente tido como “contraditório”, pelo jornalista Flávio Tavares, mas que não esquece de elogiar-lhe a política externa independente – e que lhe causou atritos com os EUA, a ponto de o procurador-geral Robert Kennedy ter vindo cobrar de Goulart não só mudanças dessa política, mas mesmo a cabeça de alguns de seus ministros. Duas coisas que o presidente brasileiro recusou, aumentando um passivo que serviria como pretexto para que os EUA articulassem o golpe militar, com a ingerência direta do então embaixador americano, Lincoln Gordon – um tema que foi explorado em mais detalhes em outro documentário recente, O Dia que Durou 21 Anos, de Camilo Tavares.
 
Waldir Pires, que era consultor da República na era Jango, lembra igualmente da movimentação das tropas americanas para sustentar os golpistas, ressaltando o temor de Jango de que dividissem o Brasil – o que esteve por trás de sua decisão de não resistir, deixando o país e partindo para o exílio.
 
Através de depoimentos como do senador uruguaio Rafael Michelini, o documentário relaciona informações sobre a famosa Operação Condor, colaboração estreita entre os serviços secretos de vários países do continente sul-americano, que estavam por trás de sequestros, prisões ilegais e mesmo assassinatos. Lembra-se de uma onda de mortes violentas de políticos como Juan José Torres, Carlos Prats, Orlando Letelier, Hector Ruiz e Zelmar Michelini (pai do senador Rafael), que teriam o dedo destes agentes ligados à repressão política.
 
Ameaças, no caso de Jango, se materializaram de diversas formas. Amigos, como o ex-governador pernambucano Miguel Arraes, chegaram a preveni-lo por carta do perigo de um atentado. O próprio chefe da polícia argentina chegou a dizer a Jango, na época asilado naquele país, que não podia mais garantir sua segurança. Por temer o sequestro de seus dois filhos, Jango foi a Paris, ainda que pensasse mesmo em voltar ao Brasil. Nesse ínterim, acabou morrendo, em dezembro de 1976. Seu cunhado, o ex-governador Leonel Brizola, também disse em entrevistas que não acreditava que Jango teria morrido de morte natural.
 
Alguns acontecimentos estranhos reforçam as suspeitas, nunca devidamente investigadas – não foi nem mesmo feita autópsia no ex-presidente, nem na Argentina, nem no Brasil, onde ele foi sepultado. Um amigo de Jango, o empresário uruguaio Foch Díaz, realizou uma investigação por sua conta, depois relatada num livro, garantindo que teriam ocorrido nada menos do que 18 mortes não naturais, geralmente do coração, de pessoas ligadas a Goulart, como seu ex-piloto, Rubem Rivero. O próprio Foch Díaz, afinal, morreu do coração.
 
Mais intrigante ainda é a informação sobre uma certa Operação Andrea, relacionada ao desenvolvimento de diversos venenos – que poderiam causar ataques do coração – pelo bioquímico Eugenio Berrios, ligado ao agente da CIA Michael Townley.
 
Um bom momento está no depoimento de um ex-agente uruguaio, Mário Barreiro, preso em Porto Alegre, que diz ter vigiado Jango e poderia ter mais informações, segundo o jornalista uruguaio Roger Rodriguez, que entrevistou Barreiro e foi também ouvido neste filme.
 
Mencionam-se, igualmente, desconfianças em relação à morte de outro ex-presidente, Juscelino Kubitscheck, num acidente de carro também em 1976; e mesmo, na morte de Carlos Lacerda, ex-governador da Guanabara, em março de 1977. A princípio apoiador do golpe, Lacerda depois foi cassado e tentou articular, com Jango e JK, a Frente Ampla, para a democratização.
 
A tese que o filme defende é apenas uma – é necessário investigar, de uma vez por todas, todas estas histórias. E sepultar definitivamente todos os fantasmas de 1964.
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