O jovem guerrilheiro Eduardo Leite “Bacuri” morre em 1970 nas mãos da ditadura militar brasileira, depois de 109 dias de tortura. Sua companheira, Denise Crispim, perseguida e presa durante a sua gravidez, consegue fugir para o Chile depois do nascimento de Eduarda. Lá, encontra seus pais exilados, os quais dedicaram toda a sua vida à luta pela liberdade. A violência da repressão volta a atingir a família com o golpe de Augusto Pinochet, obrigando pais e filhos a se dispersar pelo mundo.
- Por Neusa Barbosa
- 19/08/2013
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A atriz e cineasta portuguesa Maria de Medeiros demonstra uma sensibilidade especial na condução do documentário Repare Bem, que resgata a história de sobrevivência de Denise Crispim e sua filha, Eduarda Ditta Crispim Leite, respectivamente a companheira e a filha do militante da luta armada Eduardo Leite, o “Bacuri”. Ele foi morto aos 25 anos, depois de 109 dias de tortura em diversos locais, em 1970.
Vencedor de três prêmios no Festival de Gramado, incluindo o de melhor filme da seção estrangeira para o júri e os críticos, Repare Bem expõe detalhes assustadores não só do martírio de Eduardo, como de torturas inflingidas a Denise na mesma época. Grávida de seis meses, ela foi, por exemplo, colocada na jaula de uma fera no zoológico de São Paulo, que o guardião noturno foi forçado a abrir para os militares que a mantinham prisioneira.
Se a história já foi objeto de investigação e indenização, a partir do trabalho da Comissão da Verdade – o que é inclusive mostrado no filme -, é fato que o documentário permite ir mais longe no perfil de uma família. Aquele que é um verdadeiro clã de resistentes políticos inclui os pais de Denise, o deputado comunista José Maria Crispim, que viveu exilado fora do Brasil; sua mulher, a operária Encarnación, presa política que deixou diários detalhados de uma vida marcada por sacrifícios; e também o outro filho deste casal, Joelson Crispim, morto por sua militância na luta armada, em 1970.
Os diários de Encarnación foram, inclusive, descobertos no processo de produção do documentário e estão agora sob estudo para uma publicação, com a mediação da própria Maria de Medeiros.
Atriz de mais de 100 filmes internacionais e diretora de poucos mas decisivos títulos – como o sensível Capitães de Abril (2000), em que ela, aos 34 anos, se arriscou a retratar a Revolução dos Cravos de 1975 – Maria mostra a sutileza de sua direção a partir de um visível processo de confiança mútua com seus personagens.
Optando por uma montagem ditada pela palavra – e Denise Crispim é uma narradora muito eloquente -, Maria esconde-se atrás de uma direção discreta, abrindo mão de qualquer estetização. Um dos poucos luxos a que se dá é abrir o filme com um trecho de Um Dia Muito Especial, de Ettore Scola, já que é no mesmo prédio romano que é cenário do filme que Eduarda tem um apartamento, comprado em parte com a indenização recebida do Brasil.
Se a reparação oficial pela morte de Eduardo Leite já foi feita, a punição dos seus carrascos e de Joelson continua em aberto, o que ainda é objeto de uma luta de Denise Crispim, que voltou a morar no Brasil depois de anos exilada na Itália. Salta aos olhos que o maior objetivo do filme é ser um instrumento para que a memória destes fatos não se perca.
