18/07/2026
Drama

Paraíso [2003]

Filippo é um policial discreto e calado que se apaixona por Philippa - uma professora de inglês que se tornou a involuntária assassina de quatro pessoas, num atentado que visava um chefão narcotraficante, responsável pela morte de seu marido.

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Não é todo dia que o cinema consegue erguer uma ponte entre o tempo, o espaço e a poética de dois diretores. Este quase milagre é a jóia incrustada neste filme raro, fruto de um roteiro inédito do polonês Krzysztof Kieslowski (morto em 1996) e da direção inspirada do alemão Tom Tykwer (A Princesa e o Guerreiro e Corra, Lola, Corra).

Escrito por Kieslowski e Krzysztof Piesewicz, Paraíso deveria ter sido a primeira estação de uma nova trilogia, como a inesquecível tríade das cores (A Liberdade é Azul, A Liberdade é Branca e A Fraternidade é Vermelha). A seguir, viriam Inferno e Purgatório, histórias das quais foram escritos esboços que, afinal, não se sabe se alguém terminará um dia. Paraíso, em todo caso, é um filme completo, onde se insinua uma sutil presença de Kieslowski, mas onde o que se impõe é a concisão emotiva de Tykwer.

O diretor alemão cultua o amor pelas coincidências - presentes na história através do nome e da data de nascimento, comuns aos dois protagonistas - e a manipulação do tempo, tão peculiar na obra do grande diretor polonês. Por isso, essa parceria entre os dois, ainda que à distância, tem alguma coisa de telepática.

Há, nesta história, um decálogo de pecados - matar, vingar, mentir, fingir, trair, fugir à justiça, os principais. Tudo isso encontra resguardo neste insólito romance entre o militar Filippo (Giovanni Ribisi) e a professora de inglês Philippa (Cate Blanchett). Reproduzindo o encanto tímido do adolescente de Não Amarás - outro filme emblemático de Kieslowski -, Ribisi encarna um policial atípico, que se apaixona pela criminosa, ao invés de querer puni-la, muito menos corrigi-la. Bem ao contrário do tagarela enfermeiro Benigno (Javier Cámara, protagonista de Fale com Ela, de Pedro Almodóvar), Filippo praticamente não fala. Apenas escuta, bebendo cada palavra do depoimento de Philippa, involuntária assassina de quatro pessoas num desastroso atentado a bomba que visava um chefe do narcotráfico.

Anjo exterminador imbuído de uma ética particular, Philippa identifica no traficante um assassino, responsável não só pela morte de seu próprio marido, vítima de overdose, como de alguns de seus alunos adolescentes. Eliminá-lo, portanto, é uma causa que muitos poderiam considerar justa, não fosse o capricho do destino que fez a bomba ser desviada antes da hora, matando quatro pessoas inteiramente inocentes de qualquer delito - duas delas, crianças.

Quem não sintonizar com a idéia de ambigüidade, não poderá habitar o universo deste filme. Apesar de tudo, não há como dissociar a inocência do plano criminoso de Philippa, pois não é possível enxergar nesta mulher frágil uma assassina impiedosa. Mas há culpa nela o bastante para não se poder ignorar também a idéia de que para ela não há redenção à vista. Da mesma forma, a sugestão da fuga à justiça nunca passa a idéia de que se defende, aqui, a impunidade - e nem a própria criminosa quer isto. Nada é simples, muito menos a paixão de Filippo por uma heroína tão improvável.

O grande mérito do diretor é se equilibrar sobre tantas dualidades, sem sucumbir a nenhuma delas, mesmo que sejam frágeis como fios. Tykwer tem uma imaginação poderosa, uma sensibilidade amorosa e uma mão delicada, como condutor de atores, que lhe permite chegar ao final da empreitada ao mesmo tempo com respeito à idéia original e aos próprios princípios artísticos. Mas talvez sua maior façanha seja realizar tudo isso dentro de uma produção americana, do estúdio Miramax, falada em inglês - pela primeira vez na obra de Tykwer. Mesmo com esse carimbo yankee no passaporte, com certeza estamos aqui a anos-luz do planeta Hollywood.

Cineweb-1/11/2002

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