É preciso dar crédito a Satyrianas, 78 horas e 78 minutos, pois, se há algo que funcione no filme é o emaranhado entre ficção e documentário. É um jogo de espelhos que descontrói o processo de fazer o filme à medida que constrói o de fazer um espetáculo. Soa melhor em sua ideia do que na execução, no entanto.
Este é um documentário sobre Satyrianas um evento de 78 horas, no qual são apresentados diversos espetáculos de teatro na Praça Roosevelt (SP) – onde fica os dois teatros do grupo Os Satyros. A ideia é colocar um diretor franco-americano Jeff Luna para registrar o acontecimento. Segundo o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, o cineasta é ‘uma mistura de Michel Gondy com David Fincher. E um dia ainda vai levar um Oscar’. O ilustre desconhecido chega a São Paulo, é recepcionado por uma representante da equipe de filmagem – na qual ninguém é capaz de falar um bom inglês.
O produtor do filme diz que chamou um gringo porque está cansado de favela, crime e afins no cinema brasileiro. “Mas nada contra Cidade de Deus, sou até amigo do Fernando Meirelles”. Esse sentimento de vira-lata perdura na figura desse produtor que faz de tudo para agradar ao tal Luna, que, aliás, nunca fez um documentário.
Há uma câmera de making of, que acompanha as filmagenes. E, tal qual o português Aquele Querido Mês de Agosto, Satyrianas, 78 horas e 78 minutos é um filme com seus bastidores embutido na narrativa. Anárquico e divertido, ele se revela em sua amplitude apenas no final, quando caem as máscaras. Já o tal ‘documentário oficial’, entrevistas e imagens de peças dos Satyros, do Teatro Oficina e do Teatro da Vertigem delineiam a cena teatral paulistana e situam a importância do renascimento da Praça Roosevelt nessa simbiose entre o local e a arte.
Essa dialética das frentes da câmera e seus bastidores é uma sacada de Daniel Gaggini, Fausto Noro e Otávio Pacheco, responsáveis pelo filme, mas, às vezes, é material e informação demais que nem sempre ficam bem articulados. Quem conhece os Satyros e sabe o que são as Satyrianas vai encontrar algo de ressonante no filme, mas quem desconhece tudo isso vai parecer um pouco piada interna, da qual apenas os envolvidos conseguem achar graça.
