Documentário recupera a história do garimpo de Serra Pelada que, nos anos 1980, atraiu milhares de garimpeiros ao sul do Pará, tornando-se na época o maior garimpo a ceu aberto do mundo. O filme percorre as memórias de ex-garimpeiros, geólogos, do empresário Eliezer Batista, jornalistas, políticos, compondo um retrato vívido de um capítulo dramático da história do país.
- Por Neusa Barbosa
- 05/11/2013
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Realizado ao longo de 11 anos, o documentário de Victor Lopes percorre as memórias de ex-garimpeiros, geólogos, empresários e jornalistas, para realizar uma crônica sólida e dramática sobre a ascensão e queda de Serra Pelada – que foi, na década de 80, o maior garimpo a céu aberto do mundo.
Partindo do início da descoberta de ouro na Fazenda 3 Barras, o filme revela os capítulos da invasão da região. Do dia para a noite, a notícia da existência de uma reserva mineral intacta de ouro no sul do Pará atraiu milhares de garimpeiros àquela que era uma área de pesquisa da empresa Vale do Rio Doce, que não conseguiu impedir o acesso deles.
115.000 homens teriam tirado cerca de 100 toneladas de ouro da montanha que, ao longo dos anos, foi dizimada, retirada aos poucos nos sacos dos garimpeiros, tornando-se o lago que é hoje. E onde ainda há minérios, embora não haja mais acesso irrestrito, como há 30 anos.
O filme documenta essa explosão humana, econômica, ambiental, num faroeste real, onde a riqueza se conquistava e perdia num segundo e a vida não valia nada. É particularmente comovente a sequência em que os ex-garimpeiros se reconhecem nas fotos da época – como aquelas realizadas por Sebastião Salgado, que imortalizou a saga da montanha fugaz, assim como o jornalista Ricardo Kotscho, em livro.
Um capítulo particularmente bem-retratado é o uso político do garimpo nos estertores da ditadura, trazendo em evidência a figura do coronel Sebastião Curió – homem do Conselho de Segurança Nacional, um dos carrascos da guerrilha do Araguaia e que terminou fazendo frente ao próprio último presidente militar, João Batista Figueiredo, ao usar os garimpeiros como massa de manobra para pressões pela reabertura de Serra Pelada, em 1982.
Desdobramentos como a privatização da Vale do Rio Doce, no governo FHC, o massacre de Eldorado dos Carajás – em que 16 dos 19 mortos eram ex-garimpeiros de Serra Pelada -, e o afastamento de Curió da prefeitura de Curionópolis, em 2004, por compra de votos, formam um mosaico complexo e muito rico para entender os paradoxos do Brasil.
