04/06/2026
Fantasia Drama

Os filhos da meia-noite

As crianças que nasceram à meia-noite do dia em que a Índia se tornou independente ganharam poderes especiais. O filme acompanha a história de um deles, garoto pobre que foi trocado na maternidade e cresceu numa família rica.

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O premiado romance homônimo de Salman Rushdie, Os filhos da meia-noite, representa um grande desafio para ser transformado num filme. Com mais de 500 páginas e algumas dezenas de personagens, esse é um livro que requer uma leitura atenta e algum conhecimento sobre a história da Índia. Um dos maiores exemplos de literatura colonial, o romance usa fatos reais – como a independência do país, em 1947 – combinados com narrativa ficcional embalada num realismo mágico, algo que raramente funciona no cinema. 
 
Dirigido pela indiana Deepa Mehta, a partir de um roteiro do romancista – que fornece sua voz como narrador –, o longa resulta numa minissérie condensada e apressada sem tempo para que os eventos se desenvolvam de forma orgânica. Para compreender o romance, apêndices, que incluem mapas e árvores genealógicas, são necessários. Na tela, Deepa reduz tudo aos quiproquós de uma telenovela, com uma narração solene e reverente.
 
“Eu nasci em Bombaim, era uma vez. No dia em que a Índia conseguiu sua independência. Meu destino, ligado ao do país”, começa a narração. Em tom de fábula sombria, esse é o ponto de partida do monólogo de Saleem (Satya Bhabha), que conta a história de sua família a sua futura esposa. Esse prólogo traz fatos que o próprio personagem não poderia ainda conhecer, pois seu nascimento se dá lá pelos 30 minutos de filme. É o tipo de recurso que funciona melhor nas páginas de um romance do que na tela.
 
No momento de seu nascimento, uma enfermeira (Seema Biswas) o troca por outro bebê, e dá a chance a uma criança pobre de ser criada por uma família rica. Por conta da hora do seu nascimento – meia-noite –, Saleem tem poderes paranormais. Não apenas ele, mas também as outras 581 crianças nascidas no mesmo momento. É uma espécie de esquadrão de X-Men indiano, que, embora se mantenham algumas tintas políticas do romance, na tela é apenas mais um exotismo, entre tantos outros.
 
Deixando boa parte da intersecção do privado com o histórico de lado, a diretora se concentra no lado emocional da trama. Entretanto, os personagens são rasos, funcionando apenas em função de uma manipulação emocional, destituindo-os de qualquer espécie de vida privada. Os valores de produção, como direção de arte, fotografia, figurinos, trilha sonora etc, apenas salientam o exotismo da Índia, num filme sob medida para agradar a plateias movidas pela curiosidade sobre lugares distantes  – mesmo sem um pingo de autenticidade.
 
Filmado no Sri Lanka com um título falso – especialmente por conta das polêmicas envolvendo o autor do romance, como a sentença de morte emitida pelo aiatolá Khomeini, nos anos de 1980, quando publicou Versos Satânicos –, Os filhos da meia-noite é um filme que deixa de lado os elementos mais interessantes do romance, como a busca de uma identidade da Índia tentando superar seu passado colonial, para transformá-lo num entretenimento longo e inócuo. 
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