06/06/2026
Documentário

Cidade Cinza

Em 2008, um grande painel assinado pelos OsGemeos, perto do Minhocão, centro de S. Paulo, foi coberto de tinta cinza - a política oficial da prefeitura da capital para cobrir as intervenções do grafitti nos muros e paredes da cidade. A partir desse incidente, o documentário questiona essa estratégia de apagar as manifestações dos artistas de rua e as maneiras de sua livre expressão na maior cidade da América Latina.

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Um dos temas deste documentário é o grafitti, a arte que se exprime nas paredes e muros de grandes cidades, como São Paulo. Mas fica claro desde a primeira vista aérea da capital paulista, que os documentaristas Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo procuraram muito mais do que enfileirar depoimentos de grafiteiros. Sua busca em Cidade Cinza é discutir a necessidade de expressão individual e as restrições à apropriação do espaço público. E também o significado desses limites.
 
O documentário parte de um episódio exemplar – o apagamento de um conhecido painel de 700 m2, ao lado do Minhocão, no centro da cidade, pintado pela famosa dupla de artistas OsGemeos. Ao ser coberto de tinta cinza, em 2008, de acordo com a “política oficial” da prefeitura para eliminar da vista os desenhos indesejados dos grafiteiros, o painel tinha 6 anos de vida e diversos admiradores de seu enfrentamento colorido da paisagem esquálida à sua volta.  
 
Para tremendo azar da empresa terceirizada que realizou o banho de tinta cinza e do prefeito paulistano que a comandou – Gilberto Kassab -, naquele mesmo momento os autores do painel, OsGemeos, tinham sido convidados a expor sua arte de rua na fachada de um dos maiores e mais prestigiados museus de Londres, o Tate Modern. Pegou mal e Kassab e seu secretário, Andrea Matarazzo, pediram desculpas. E convidaram OsGemeos a refazer seu trabalho no mesmo local.
 
A partir do incidente, o filme coloca em discussão essa apropriação, por princípio desordenada e transgressora, que os grafiteiros fazem da cidade. Algumas pessoas chamam seu trabalho de “sujeira”. Mas artistas como os próprios Gustavo e Otávio, OsGemeos, além de Nunca, Nina, Finok, Zefix, Vitche, Espeto, Binho e Ise, discutem essa política municipal de recobrir todo e qualquer desenho de tinta cinza – é isso o que se quer? Essa é uma boa ideia de “limpeza” ? Que efeitos isso gera sobre a cidade? E, mais ainda, a quem pertencem seus espaços?
 
Enquanto repintam o painel, OsGemeos e vários outros grafiteiros que eles convidaram para a reconstituição falam o que pensam disso. E também curadores de galerias de arte, da própria Tate inclusive, comentam o espaço que a arte de rua conquistou na raça nos últimos anos. Não escapa da discussão a ligação umbilical da cultura de rua com ritmos como o rap, o break e o hip hop, detalhe acentuado pela muito apropriada trilha musical assinada por Criolo e Daniel Ganjaman. É uma boa discussão. E o filme, um respiro para pensar em que cidade seus moradores querem viver.
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