18/07/2026
Suspense

Um corpo que cai

John "Scottie" Ferguson é um detetive aposentado de San Francisco, que sofre de vertigem. Um amigo da faculdade um dia o procura, encarregando-o de seguir sua bela mulher, Madeleine. Supostamente, ela está enlouquecendo, acreditando-se possuída pelo fantasma de uma ancestral.

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Na confortável poltrona que ocupa na eternidade, o fantasma de Alfred Hitchcock deve ter dado um sorriso sarcástico quando, em 2012, na tradicional votação promovida pela revista britânica Sight & Sound, seu suspense Um Corpo que Cai destronou do primeiro posto como melhor filme de todos os tempos, ocupado por longos 50 anos, Cidadão Kane, de Orson Welles.
 
O hipotético sorriso de Hitch faria mais sentido ainda quando se lembra que, na época de seu lançamento, em 1958, o filme não foi acolhido calorosamente pelos críticos da época. 54 anos depois, outras gerações de críticos atestaram a permanência e a excelência deste que é um dos filmes voyeurs de Hitchcock, ao lado de Janela Indiscreta – as duas obras, não por acaso, protagonizadas pelo “homem comum” James Stewart.
 
Esse olhar que antecipa e intensifica emoções que seriam mais bem expressas pelo tato é o veículo da ambivalência que dá o tom à história, tornando-a hipnótica. Entre sanidade e loucura, pecado e altruísmo, sem chegar ao sagrado nem mergulhar, propriamente, no profano. Toda essa gangorra emocional impulsiona o mundo de John “Scottie” Ferguson (Stewart), um detetive aposentado que sofre de vertigem.
 
Quando um amigo (Tom Helmore) o procura para encarregá-lo de seguir sua mulher, Madeleine (Kim Novak), dá-se o gatilho da ambiguidade. Supostamente, Madeleine é vítima da obsessão de estar possuída pelo espírito de uma ancestral e, por isso, sofre de uma depressão que a induz ao suicídio. Seguindo-a, o detetive a salva de um quase afogamento. Mas sua própria doença, o medo de altura, impede-o de segui-la quando ela sobe os degraus de uma alta torre de igreja.
 
Nesse jogo em curso entre os personagens, em que nada é o que parece ser, é notável o próprio detalhe de que o diretor pensava o filme para Vera Miles, o que não aconteceu quando se desentendeu com a atriz. Kim Novak é, portanto, uma substituta, uma espécie de duplo, dilema central do enredo envolvendo duas mulheres, na tela, idênticas.
 
A atmosfera de sonho, de duplicidade de sensações, é delineada com o perfeito entrosamento da música de Bernard Hermann – parceiro habitual do diretor – e da fotografia de Robert Burks, ambas precisas e na medida, sem qualquer espalhafato. Aliás, o filme todo é um modelo de sutileza e intensidade, ambas indissociavelmente ligadas naquele estilo que Hitchcock tornou único. 
 

Uma curiosidade é que Hitchcock inventou neste filme um efeito para tornar evidente a vertigem de “Scottie”, um truque de câmera que misturava zoom com um recuo de lente – e que foi muito imitado depois por vários cineastas.  

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