Estrelado pelo cantor Toni Garrido, o filme retoma peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, com novas músicas de Caetano Veloso. O lançamento em cinema, em 1999, foi feito com respeitáveis 130 cópias em todo o País, uma estréia em grande estilo bancada pela internacional Warner Brothers - que pela primeira vez distribuiu um produto brasileiro. O orçamento, embora modesto em termos de Hollywood, até hoje é raridade no mercado nacional: US$ 7 milhões, soma superior ao custo de superproduções da mesma época, como Guerra de Canudos, de Sergio Rezende, Tieta (este, do mesmo Cacá Diegues) e o dobro de Central do Brasil, de Walter Salles.
Seguindo outro preceito de blockbuster tupiniquim, o elenco é recheado de estrelas globais. Isabel Fillardis é Mira, interesse amoroso do sambista Orfeu da Conceição (o cantor Toni Garrido), campeão do Carnaval pela escola Unidos da Carioca (que, na tela, é representada pela Unidos do Viradouro, de Joãosinho Trinta).
A paixão do casal sofre um golpe fulminante com a chegada de Eurídice (Patrícia França), sobrinha de Carmem (Maria Ceiça), esta uma outra ex-amante de Orfeu. Os pais do compositor (Zezé Motta e Milton Gonçalves) assistirão, impotentes, ao desenlace trágico que envolve a participação de um amigo de infância do filho, o traficante Lucinho (Murilo Benício).
Sem dúvida, foi pensando em lançar uma isca para uma numerosa platéia jovem que se escalou para o papel principal o jovem vocalista do grupo Cidade Negra, Toni Garrido. Pena que o talento dramático do cantor não esteja à altura de seu físico de malhador de academia e da boa voz, que costuma entoar reggaes, não sambas-enredo, como seu personagem.
Pior figura faz a atriz Patrícia França, que defende sem carisma nem sensualidade o principal papel feminino. Tão morna ela está que fica difícil acreditar que o assediado Orfeu vá deixar de lado seu enorme fã-clube para tornar-se monogâmico ao lado desta mulher.
Do ponto de vista da produção técnica, Orfeu é inegavelmente um produto de primeira linha. Reuniu profissionais do nível de um Affonso Beato (repetindo na direção de fotografia o mesmo excelente trabalho visto em Carne Trêmula, de Pedro Almodóvar), Clóvis Bueno (direção de arte) e Caetano Veloso (direção da trilha sonora). Todo este apuro técnico presta-se muito bem para mostrar a realidade ao mesmo tempo brutal e poética do morro carioca - uma contradição tão rica do ponto de vista artístico que o público nacional, por estar tão perto desse cotidiano em que se misturam os tiroteiros dos traficantes e a sofisticada engenharia do Carnaval mais famoso do mundo, nem sempre consegue perceber com clareza.
Orfeu aspira, claramente, a ser um retrato do Brasil onde o próprio Brasil se reconheça - mas o roteiro comete pecados grandes demais para que isso ocorra de fato. Mesmo assim, o público nacional prestigiou - nos cinemas, foi visto por aproximadamente 900.000 espectadores.
Tal como aconteceu com seu trabalho anterior, Tieta, a trilha de Caetano Veloso é, ao mesmo tempo, um escudo e uma maldição para o filme de Cacá Diegues. Quem não gostar de nada em Orfeu dificilmente deixará de apreciar sua bela música.
Para Caetano, esta é uma cartada segura. Ele não briga com a tradição, conservando as luminosas canções de Vinicius de Moraes, tanto da peça original (Valsa de Eurídice, Eu e Meu Amor e Se Todos Fossem Iguais a Você) como do filme de Camus (A Felicidade, um dos mais populares frutos da inspirada parceria entre Vinicius e Tom Jobim, iniciada com a peça), e incluindo sambistas veteranos do quilate de Nelson Sargento.
Mantendo intocada sua imagem iconoclasta, o compositor baiano ainda flerta com modernismos, incorporando um rap de Gabriel O Pensador ao samba-enredo de sua autoria, História do Carnaval Carioca. Mas Caetano deveria ter-se poupado da cena em que, interpretando uma canção, aparece absurdamente sentado no telhado de um barraco do morro.
O filme de Cacá Diegues, na verdade é a terceira encarnação de uma mesma história, a transposição do mito grego de Orfeu para o morro carioca. O Orfeu da lenda grega era um músico que descia ao Inferno para recuperar a sua musa Eurídice, morta pela picada de uma serpente. Na peça de Vinicius de Moraes, escrita em 1954, o protagonista virava Orfeu da Conceição, um sambista carioca, morador de favela, cujo amor pela nova musa durava apenas um Carnaval. Coisa finíssima: os cenários eram de Oscar Niemeyer e a música, do ainda desconhecido Tom Jobim, interpretada ao violão por Luiz Bonfá. Em 1959, a genial recriação de Vinicius serviu de base para o filme Orfeu Negro (ou Orfeu de Carnaval), do francês Marcel Camus, que fez tanto sucesso que acabou acumulando a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro. Antes disso, em 1950, o francês Jean Cocteau já havia composto o seu belo e poético Orfeu, ambientado na Paris existencialista do pós-guerra.
