Nascida numa família judia e de classe média alta em S. Paulo, Iara Iavelberg desviou-se de sua trajetória para abraçar a militância armada contra a ditadura de 1964, assim como seu irmão, Samuel. Intelectualizada, ela se tornou mulher de Carlos Lamarca e morreu em 1971, aos 27 anos, num cerco policial na Bahia. A tese oficial foi de suicídio, mas há dúvidas consistentes para sustentar o contrário.
- Por Neusa Barbosa
- 25/03/2014
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Nascida na elite paulistana, Iara Iavelberg (1944-1971) abandonou o conforto, o casamento e a psicologia, aderindo à luta armada nos anos 1960. Sua morte, em agosto de 1971, foi oficialmente atribuída a um suicídio – e esta é a tese que o documentário Em Busca de Iara, de Flávio Frederico, preocupa-se mais veementemente em desmentir.
A raiz familiar do roteiro, da sobrinha de Iara, Mariana Pamplona, assinala um tom muitas vezes intimista num filme que é também uma busca. Filha da irmã de Iara, Rosa, Mariana não recebeu o sobrenome inclusive por temor de represálias durante a ditadura militar.
A história de Iara ilustra um dos muitos desvios radicais de trajetória determinados a partir do golpe de 1964. Parte de uma rica família judia, ela casou-se aos 16 anos com um estudante de medicina. Casada, estudou Psicologia, então abrigada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, ambiente que foi decisivo para sua transformação.
Na USP, Iara foi exposta à intensa efervescência política e cultural, o que a levou inclusive a estudar marxismo e ao movimento estudantil. Não só rompeu o casamento como terminou aderindo a grupos da luta armada como o Polop, VPR e MR-8, ao lado de seu irmão, Samuel.
O grande encontro, porém, foi com o capitão Carlos Lamarca. De origens completamente diferentes, os dois se complementavam. Os dois foram juntos da VPR para o MR-8. No diário de Lamarca, ele conta que ela foi sua “professora de política”, indicando leituras marxistas. Os dois fizeram treinamento militar no Vale do Ribeira, participando de sequestros e ações armadas.
Por conta de sua relevância dentro da guerrilha, o casal era um dos alvos preferenciais da repressão. Sua captura seria um troféu para o regime. Escapando ao cerco em São Paulo e no Rio, eles foram para a Bahia e se separaram. Iara ficou em Salvador, ele partiu para o interior. E foi em Salvador, trancada no banheiro de um prédio de apartamentos no bairro de classe média da Pituba, cercada por forças de segurança, que ela morreu com um tiro no peito. Segundo a versão oficial, disparado por ela mesma, ainda que os próprios documentos da época contivessem diversas lacunas e contradições.
Familiares e amigos de Iara nunca aceitaram essa história. E, em 2003, uma ação judicial determinou a exumação do corpo, que fora sepultado na seção destinada aos suicidas do Cemitério Israelita de São Paulo, fato sempre traumático para os familiares. A conclusão do novo laudo, assinado pelo legista Daniel Munhoz, da USP, apontou que o tiro que causou a morte da militante fora dado a uma distância incompatível com o suicídio, abrindo espaço à tese de uma execução.
Somando-se a filmes recentes, como Diário de uma busca, de Flávia Castro, e Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, Em Busca de Iara oferece uma contribuição ao debate sobre a herança da ditadura e ao restabelecimento da memória do país.
