21/07/2026
Drama

Sonhos Tropicais

post-ex_7
A espantosa semelhança entre o Brasil de 1903 e o de 2002 é o aspecto que, de saída, fisga o espectador desta promissora estréia do diretor paulista André Sturm. Estão lá, como cá, políticos incapazes, massas populares excluídas, jovens pobres exploradas pela prostituição e o famoso mosquito Aedes Egypti. No Rio de Janeiro da virada do século XIX para o XX, o inseto esteve por trás de uma grave epidemia de febre amarela. Mantida a inoperância que impede a sua erradicação, quase um século depois o mesmo mosquito é o agente de uma não menos grave epidemia de dengue.

Mas não se trata de um documentário nem de um filme didático. Adaptado de um romance homônimo do escritor e médico gaúcho Moacyr Scliar, o roteiro assinado pelo próprio Sturm, ao lado de Fernando Bonassi e Victor Navas, libera já desde seu primeiro segmento a intensa dramaticidade da figura da jovem judia polonesa Esther (Carolina Kasting). Desembarcada no Rio sem saber falar a língua, com um endereço escrito num pedaço de papel, a moça é ajudada pelo malandro boa-praça Amaral (Douglas Simon). Digno representante do jeitinho brasileiro, Amaral consegue fazer-se compreender pela bela estrangeira e ajudá-la a descobrir a casa que procura, onde ela espera encontrar o casamento com um colono. Ao invés disso, ali tem início um verdadeiro pesadelo.

Atrás daquela porta, Esther encontra uma rede de prostituição, comandada por um compatriota (Antonio Petrin) que engana famílias pobres em seu país natal, convencendo-as de que enviam noivas para casamentos no Brasil. Aqui, no entanto, as polonesas tornam-se prostitutas, um negócio que dá altos lucros a uns poucos. Mesmo rebelando-se, uma mulher jovem, pobre e estrangeira como Esther não tem saída senão conformar-se.

Ao mesmo tempo em que a sofrida Esther acorda de seu engano, um personagem mais famoso volta da Europa - o médico e sanitarista Oswaldo Cruz (Bruno Giordano). Cheio de novos planos e idealismo, Cruz é requisitado pelo governo.Trabalho não lhe falta. Naquele início de século, o Rio, então capital federal, era assolado por epidemias como peste bubônica, depois varíola e febre amarela, resultado direto das precárias condições de moradia da imensa maioria da população - em grande parte, formada de negros que saíram diretamente da abolição da escravatura para recaírem na exclusão da educação e da profissionalização.

Poucas vezes se vê, aliás, um filme brasileiro olhar tão diretamente e com tanta clareza para a questão racial do Brasil, enfocando a revolta verídica do Morro da Saúde, sob a liderança do carismático Prata Preta (o belga de origem zairense radicado no Brasil Bukassa Kabengele).

O filme perde um pouco dessa energia das seqüências das jovens polacas e do movimento social do morro em cenas de gabinete, em que se expõem as tramóias dos políticos - que poderiam ser mais enxutas. Em compensação, sobram ritmo e ironia nas ótimas intervenções de três velhinhos (José Lewgoy, Antônio Pedro e Hugo Carvana) que, de sua sempre muito bem-sortida mesa na belíssima Confeitaria Colombo, no Rio, disparam farpas contra todos os personagens de sua época. Sorte nossa que, além do Aedes Egypti, o senso de humor brasileiro também é difícil de erradicar.

Cineweb-26/4/2002

post