Bastante popular nos EUA, o comediante Tim Allen nunca emplacou no Brasil. O humor tem dessas coisas: costuma viajar muito mal. Cada país elege os seus humoristas e raramente um deles ultrapassa suas fronteiras - embora gênios como Chaplin, Groucho Marx, Buster Keaton e Woody Allen estejam aí mesmo para constituir as notáveis exceções.
No caso desta simpática comédia, pode ser uma injustiça esse estado de coisas continuar assim. Não exatamente por causa de Tim Allen, mas de toda a história e do elenco afinadinho, que elevam este programa despretensioso a um patamar um pouco superior ao que se poderia esperar do material, à primeira vista. Tim Allen interpreta Joe Scheffer, um especialista em videocomunicação dentro de uma grande empresa, vivendo no maior baixo astral, no trabalho e na vida. No escritório, ninguém lhe dá a mínima e sua promoção não está no horizonte, apesar dos dez anos de dedicação à firma. A vida pessoal vai ainda pior. Divorciado de uma bela atriz, Callie (Kelly Lynch), ele não consegue namorar ninguém.
Uma das boas razões para acompanhar com interesse este filme está na garota Natalie (Hayden Panettiere), a espertíssima filha de Joe. Com apenas 13 anos, a menina impõe sua presença na tela. Atualizando a imagem da adolescente para um padrão mais moderno, em que jovens como ela convivem desde a mais tenra idade com problemas complexos como a separação dos pais, o roteiro acerta em dar-lhe maior espaço e diálogos inteligentes do que em geral se dedica a personagens desta faixa etária em comédias familiares. Superando este chavão, o roteiro de John Scott Shepherd faz o melhor proveito da talentosa e precoce intérprete que, além do mais, tem um padrão de beleza diferente das patricinhas que Hollywood costuma prestigiar.
O conflito básico, em todo caso, é a decisão de Joe de parar de ser passivo diante de tudo depois de levar uma surra de um colega valentão (Patrick Warburton) - bem no estacionamento da firma, diante da filha e pelo motivo mais bobo do mundo. O fortão, além do mais, roubara a vaga de seu carro. Decidido a dar um basta, Joe marca uma briga de revanche contra o colega enfezado. Para garantir a futura performance, começa a treinar seriamente com um professor de lutas marciais (James Belushi).
Enquanto se prepara para o tira-teima, Joe encara outros dilemas. Todos os seus colegas na firma agora o adoram - porque o valentão é detestado entre eles. Todo mundo o convida para todos os eventos sociais. Mas será que é isso mesmo o que ele queria? Desdobrando as dúvidas do protagonista, confrontado por uma bela garota, Meg (Julie Bowen), o filme eleva suas ambições um pouco além do que Hollywood costuma pretender de um programa assim, para toda a família. O resultado é uma comédia para toda a família que mantém completamente a dignidade.
Cineweb-9/8/2002
