O amargo episódio que o afastou da Congregação Israelita Paulista (CIP), cuja liderança exerceu por 37 anos, e o levou a uma vida mais reclusa é infinitamente menor do que a importância de Sobel na história brasileira. E é este o ponto de vista que move o documentarista André Bushatsky em seu primeiro longa A História do Homem Henry Sobel.
Por meio de entrevistas com amigos de Sobel, jornalistas, estudiosos e lideranças judaicas, o cineasta reconstitui a vida do rabino (hoje, emérito pela CIP), pontuando seus grandes momentos. Descreve-se a educação rabínica nos Estados Unidos, a ascendência na congregação em São Paulo e sua atuação mais progressista na instituição, a abnegada luta pela defesa de direitos e, sem dúvida, seu importante trabalho para remover o estigma do judaísmo como religião intramuros.
Aqui, um dos mais importantes temas trabalhados por Bushatsky é o caso do jornalista (judeu) Vladimir Herzog, morto em 1975. Na época, o órgão de repressão do Exército brasileiro afirmara que ele havia cometido suicídio na cela em que estava preso. Versão refutada até pelo rabino que, por isso, não acatou a prática judaica de enterrar suicidas na parte externa do cemitério, fazendo-o no centro da necrópole (mesmo sob ameaças do DOI - CODI).
Mais ainda, na semana seguinte à morte do jornalista, Sobel participou com D. Paulo Evaristo Arns e o reverendo James Wright de uma missa ecumênica na Praça da Sé, em São Paulo, que reuniu cerca de oito mil pessoas. O episódio tornou-se um dos marcos da luta contra a ditadura brasileira.
Não há dúvidas de que ele foi por 40 anos símbolo carismático da bondade e tolerância, mas que viu diluir sua identidade ao ser flagrado em pecado. Mas a complexidade do homem Sobel, nas suas escolhas e convicções, não se resume ao episódio, como mostrado aqui.
