07/06/2026
Documentário

Brincante

Documentário revela a arte do dançarino e pesquisador Antonio Nóbrega a partir da realização de um de seus espetáculos mais recentes, "Brincante".

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Dentro da cultura popular brasileira, os brincantes são aqueles que participam e dão corpo a tradições como o bumba-meu-boi e os folguedos, entre inúmeras outras manifestações nas quais dançam, cantam, tocam, interpretam, etc. Sejam artistas profissionais ou pessoas comuns que abrem uma brecha na rotina para fazer com que a tradição continue a se perpetuar, estes indivíduos transformam a arte popular um instrumento de representação da própria vida. De certo modo, é o que Walter Carvalho faz, em parte, com o multiartista pernambucano Antonio Nóbrega no filme Brincante (2014).
 
Longe de ser um documentário clássico, o longa não se detém em apresentar a história de vida de seu retratado, falando de seu nascimento, investigando todos os passos de sua carreira, debruçando-se sobre sua importância dentro de um panorama mais amplo. Em vez disso, faz uma grande homenagem e usa a ficção – sem recorrer à cinebiografia – e o musical para trazer à tela o espetáculo Brincante (1992), utilizado aqui como pretexto para mostrar o lado mais importante da persona documentada: sua própria arte.
 
Assim, Nóbrega reencarna Tonheta, personagem que viveu naquela e em outras peças, além do mestre João Sidurino que, junto com Rosalina de Jesus, interpretada por Rosane Almeida, guiam o público nas aventuras desta figura singular do carroceiro andante – também transformada em animação no belo stop motion dos créditos finais.
Mas se Carvalho já trazia um registro diferenciado dos bastidores de Lunário Perpétuo, quando foi diretor do DVD do espetáculo, gravado em 2003, aqui ele retira os artistas do palco e os põe na telona para não mais se apresentarem à plateia de um teatro, e sim para a sua câmera. E, se não está à frente da direção de fotografia – é Jacques Cheuiche quem assina –, função na qual é considerado mestre, Walter faz dela e da cenografia ferramentas líricas para contar a trajetória tanto do personagem fictício quanto do real.
 
O diretor e o roteirista Leonardo Gudel realiza o cruzmento das histórias de ambos. Contudo, exceto o recorte de jornal que mostra Antonio com a família, deixando claro ao espectador que Rosane é sua esposa e que o rapaz tocando com ele em seguida é um de seus filhos, a parte que cabe à trajetória de Nóbrega fica muito implícita no filme, cabendo ao público um conhecimento prévio ou uma pesquisa posterior. Exemplos são a presença do corpo de dança no longa, que na realidade é formado por alunos do Instituto Brincante, um teatro-escola fundado pelo artista há 21 anos, em São Paulo; e da própria obra dele, que tem raízes na arte popular graças a Ariano Suassuna, que apresentou este novo mundo ao então violinista erudito quando o convidou para o Quinteto Armorial.
 
Outro detalhe biográfico inserido na produção é a vinda de um circo itinerante à capital paulista, que representa a chegada do artista tantos anos atrás na cidade onde se estabeleceu e ganhou novos públicos. E quanto maior o alcance do seu trabalho, mais críticos surgem. E para estes que consideram que Antonio se apropria da arte popular para um produto feito ao paladar da classe média, este trecho do longa pode parecer uma mera padronização da cultura popular dentro da lógica industrial da megalópole, já que a dança e a música não modificam o cenário urbano e as pessoas que o compõem.
 
No entanto, o real problema da “ida a São Paulo” no filme é que a sucessão de números musicais que se dá a partir daí dilui a narrativa da peça Brincante, que, por si só, já é colocada de maneira bem fragmentada durante a projeção. Mesmo perdendo um pouco do vigor da obra, este longa é uma ótima oportunidade de conhecer algumas das facetas destes brincantes da cultura brasileira, seja do documentado ou do documentarista.
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