Crítico de cinema experiente e impiedoso, Victor Tellez (Rafael Spregelburd) é um inimigo dos clichês e das comédias românticas. Saudosista, acha que todos os grandes filmes já foram feitos no passado e até, imagine-se, só consegue pensar em francês - apesar de ser argentino e morar em Buenos Aires. Esta é apenas a primeira das sutis ironias de O Crítico, coprodução argentino-chilena que marca a estreia do diretor e roteirista argentino Hernán Guerschuny.
É evidente desde o primeiro fotograma que Guerschuny tem conhecimento de causa do exercício da crítica, tendo no currículo a codireção da revista Haciendo Cine. Isto lhe permite tornar mais acidamente saborosas as supostas desventuras de seu protagonista, quando a vida real lhe prepara uma armadilha, no momento em que procura um novo apartamento.
Como nas mais óbvias comédias românticas, ao encontrar o apartamento ideal, ele encontra como concorrente ao imóvel uma bela e imprevisível mulher, Sofia (Dolores Fonzi). O envolvimento entre os dois segue vários dos passos previstos em qualquer manual do mais óbvio roteiro hollywoodiano, com o complicador que o crítico tem consciência plena disso. Assim, ele se arrepia ao ver-se mergulhado numa história melosa que, se fosse um filme, mereceria os piores adjetivos e uma classificação paupérrima em estrelas.
Sabiamente, a história não se resume a isto, introduzindo personagens cuja atuação no resultado final a princípio não se pode ver com nitidez, como é o caso da sobrinha de Victor, Ágata (Telma Crisanti) – não por acaso, uma amante de todos os clichês cinematográficos que o tio abomina – e de um jovem cineasta (Ignacio Rogers) inconformado com a demolição de sua obra pelo crítico insensível.
Há um acerto especialmente em não tornar o filme intelectual demais – aí se tornaria mesmo um trabalho só para críticos. Mesmo um espectador não familiarizado com a rotina desses jornalistas é introduzido com clareza no seu cotidiano e suas manias, devidamente ironizadas no comportamento de Victor e seus colegas, que se reúnem num café, em que até os garçons se acostumaram a seguir suas discussões.
Com bastante auto-ironia, O Crítico zomba também dos clichês que, não raro, se incrustam no pensamento desses profissionais, brincando com o reverso da medalha – e humanizando todos os envolvidos, devidamente descidos de qualquer pedestal.
