04/06/2026
Drama

14 estações de Maria

Maria tem 14 anos e é a mais velha dos quatro filhos de uma família, devota de uma igreja fundamentalista católica. Educada a crer no poder do sacrifício extremo, a menina convence-se de que será capaz de curar a inexplicável mudez de seu irmão caçula.

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Maria (Lea van Acken) tem apenas 14 anos, mas parece carregar o peso do mundo. Filha mais velha de quatro irmãos, ela frequenta uma igreja católica de viés fundamentalista e está prestes a crismar-se. Presa à rigidez de um mundo de regras inegociáveis, ela se isola numa visão de mundo baseada no auto-sacrifício de toda alegria e prazer.
 
Vencedor do prêmio de melhor roteiro do Festival de Berlim 2014, o drama alemão 14 estações de Maria, de Dietrich Brüggemann, opta por uma estética rígida para compor o universo de sua protagonista, do qual decorre também seu sofrimento. Recorrendo a uma câmera parada e a planos-sequência, o filme estrutura os dilemas de Maria, equiparando-os às etapas da via crúcis de Jesus Cristo.
 
Com a mesma idade de sua personagem, a talentosa atriz estreante Lea van Acken garante a autenticidade de suas emoções, vividas na flor da pele e especialmente em seu claro semblante, que transmite seu sufocamento e solidão.
No seu rígido contexto familiar, dominado pela mãe (Franziska Weisz), Maria não tem qualquer voz ativa. Ela existe ali para cuidar e obedecer, nunca podendo dizer o que pensa. Sua única fonte de ternura é Bernadette (Lucie Aron), a delicada babá de seu irmão caçula, que misteriosamente não fala, apesar de ter quatro anos.
 
O mundo fora de casa também não é acolhedor, de modo a permitir a adesão da menina a outros valores. Na escola onde estuda, Maria é muitas vezes objeto de bullying, ou simples rejeição quando ingenuamente pontifica sobre o suposto satanismo do rock e se recusa a participar de uma aula de educação física ao som deste ritmo.
 
Uma exceção é Christian (Moritz Knapp), garoto da mesma escola com quem ela partilha algumas conversas e uma ingênua atração. Mas até o mais inocente desejo de convivência com alguém da mesma idade suscita a repressão, tanto da mãe, quanto de seu guia espiritual, o padre Weber (Florian Stetter).
 
Nesse contexto unilateral, nada mais simples do que Maria fechar-se na própria imaginação e desenvolver fantasias místicas – como a de que um sacrifício seu poderia levar à cura da mudez do irmão.
 
Numa história que avança de maneira sistemática, como o ambiente que retrata, mostra-se o poder tóxico das doutrinas levadas absolutamente ao pé da letra, sem dar lugar a subentendidos ou segundas interpretações. 
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