18/07/2026
Documentário

Eduardo Coutinho - 7 de outubro

Maior documentarista brasileiro, Eduardo Coutinho revela-se com sinceridade e sem vaidades nesta conversa com o colega Carlos Nader, em que destaca personagens e situações de seus filmes e sua filosofia de vida e trabalho.

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Cineasta capaz de revelar como poucos a condição humana, Eduardo Coutinho (1933-2014) abre-se, por sua vez, nesta conversa com um colega de profissão, Carlos Nader, ocorrida em 7 de outubro de 2013.
 
Por se tratar de um papo entre dois diretores, poderia ter-se transformado numa conversa cheia de tecnicalidades e de interesse restrito. Nada disso seria possível, no entanto, em se tratando de Coutinho, uma das pessoas mais despojadas e menos vaidosas da história do cinema brasileiro.
 
É assim, com sua modéstia mal-humorada e até o argumento de que “não está bem” que ele chega ao estúdio, para uma conversa marcada com Nader, que até segue o formato de tantas das entrevistas que povoaram os melhores filmes de Coutinho. Mas, desta vez, é ele quem está na cadeira para falar.
 
A hesitação cede rapidamente espaço para que um diálogo dos mais criativos se produza. Com sua habitual ironia, Coutinho afronta regras como não falar palavrões diante das câmeras e avisa logo que só topará o compromisso se puder fumar – no que é prontamente atendido.
 
A figura fisicamente frágil do realizador octagenário, um pessimista crônico, vai-se impondo sutilmente para desvelar alguém capaz de afrontar as contradições da realidade humana sem ambições para o grandioso mas que, no entanto, o encontrava o tempo todo, como se vê em filmes como Santo Forte, Edifício Master, Babilônia 2000, Jogo de Cena, Peões e As Canções.
 
A partir de cenas destes filmes, discutidas pontualmente com Nader, Coutinho situa seu profundo interesse nas criaturas humanas que passaram diante de sua câmera. Sem vaidade pessoal, ele afirma acreditar que as pessoas contam o que lhe contam em seus filmes simplesmente pela presença da câmera – não por nenhuma habilidade especial sua. A necessidade de ser ouvido é igual a ser legitimado, isso explica tudo, para ele.
 
Para Coutinho, todos esses encontros registrados em seus filmes são únicos, porque não há como passar adiante a experiência única de cada um ser o que é: não se pode passar adiante a experiência de ser mulher, negro, peão, torturado. Só quem é pode dizer.  
 
A rejeição ao heroísmo, ao grandioso, explica-se numa outra vertente de seu olhar – a fascinação pelo inacabado, o imperfeito, o precário. A vida humana como ela é, enfim.
 
Descontraído, ele reconhece que seus filmes “veem o mundo com olhar feliz”, tudo ao contrário dele, que, ironicamente, dizia não ver sentido na vida, no ato mesmo de acordar de manhã. Por outra ironia, esta mágica, e da vida mesma, pouca gente foi capaz de dar mais sentido ao ato de simplesmente existir do que ele, com seu cinema. 
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