03/06/2026
Documentário

A Viagem de Yoani

Blogueira de sucesso, premiada internacionalmente, a cubana dissidente Yoani Sánchez visita o Brasil em 2013, em sua primeira viagem internacional autorizada pelo governo cubano. No país, ela participa de debates, enfrentando protestos contra suas posições sobre o regime cubano, visita o Congresso - onde se encontra com Jair Bolsonaro e Ronaldo Caiado - e fala de suas ideias.

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Por alguns anos na era recente, Yoani Sánchez simbolizou uma face obscura do governo cubano, a da censura à liberdade de expressão e da restrição ao direito de ir e vir. Blogueira famosa num país controlador das viagens e da internet, premiada internacionalmente, no entanto, ela sempre levantou polêmicas e está longe de ser uma unanimidade. Não poucos, dentro e fora de seu país, duvidam de sua independência, bem como de suas fontes materiais de apoio externo, creditadas desde a anticastristas de Miami à CIA.  
 
Aproveitando uma mudança na lei que limitava viagens internacionais aos cubanos, dois anos atrás, em 2013, Yoani esteve no Brasil – país que escolheu visitar em sua primeira viagem ao exterior, o que é acompanhado pelo documentário A viagem de Yoani, de Peppe Siffredi e Raphael Bottino.
 
Por que o Brasil? “Porque aqui as pessoas lutaram para que eu viesse, Quis agradecê-las pessoalmente”, ela mesma é quem diz. Entre essas pessoas, o ex-senador Eduardo Suplicy e o cineasta Dado Galvão, além do editor de seu livro, De Cuba, com carinho, Jaime Pinsky.  
 
Logo em Salvador, sua primeira parada, fica claro que sua passagem não será tranquila. Militantes de esquerda dizem que ela “é a favor do bloqueio” e chamam-na de “vende pátria”. O clima esquenta no debate marcado e até Suplicy se exalta: “Isto não é uma democracia”.
 
Em São Paulo, na Livraria Cultura, mais uma vez o debate foi interrompido, porque, com o acirramento dos ânimos, tanto de seus defensores, como de seus críticos, ela não conseguia falar.
 
Ao microfone dos documentaristas, ela exprime algumas de suas posições. Diz que é contra o embargo norte-americano a Cuba (o filme foi feito bem antes do recente reatamento de relações entre os dois países), define-se como “sem coloração política” e diz sobre Fidel Castro: “É meu passado”. Ela mesma admite a existência de fundos dos EUA para ajudar dissidentes cubanos – mas não reconhece que seja uma das beneficiárias desta “ajuda”.
 
Com a agenda cheia no Brasil, ela visitou, para uma entrevista, a sede paulistana do jornal O Estado de S. Paulo e também o Congresso, em Brasília – onde foi recebida com honras por políticos da oposição, como Jair Bolsonaro e Ronaldo Caiado. Também foi capa da revista Veja.
 
Apesar do seu esforço, os documentaristas não conseguiram ir mais adiante no esclarecimento das ideias de Yoani, por mais que tentassem. Como ela bem admitiu antes, “nunca recusa um microfone”, independente de quem o ofereça. E, depois de irritar-se com as perguntas do cineasta – “parece um questionário do governo cubano” -, largou-o sozinho, interrompendo a entrevista para tomar um café com Suplicy.
 
Desta forma, o documentário não consegue realmente revelar quem é Yoani, também por sua recusa e evasivas. Outra limitação é não acompanhar Yoani no seu cotidiano em Cuba mesmo, para sentir como é vista por lá. Ainda assim, o filme serve como instrumento para pensar na liberdade de expressão. Ela deve mesmo ser absoluta e sem fronteiras, e principalmente crítica e matizada, até para permitir distinguir com clareza aqueles realmente portadores de ideias, conteúdo e consistência de outros, meros marqueteiros de ocasião.
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