Desde seu primeiro longa, Home (2008), a cineasta franco-belga Ursula Meier parece interessada em investigar o mal-estar da civilização e o progresso. No filme, Isabelle Huppert e Olivier Gourmet eram os pais de uma família que vivia numa casa ao lado de uma autoestrada e que se isolam fechando as portas e janelas com tijolos e cimento, quando, finalmente, a estrada abandonada entra em uso.
Em seu segundo longa, Minha Irmã, Ursula novamente usa os laços familiares como mediador de situações sociais. Os protagonistas são um casal de irmãos, o adolescente Simon (Kacey Mottet Klein) e Louise (Léa Seydoux), cerca de uma década mais velha que ele. Sozinhos, moram próximos a uma estação de esqui, onde ele furta equipamentos de turistas. Ela, por sua vez, some de tempos em tempos, depois retorna.
A dupla tem uma vida, ao seu modo, sofrida e desprovida de muito conforto. Para além das montanhas, há um resort que representa o conforto e felicidade que o dinheiro pode comprar. A amizade do garoto com um cozinheiro escocês (Martin Compston) trará complicações posteriores.
Durante boa parte do filme, Ursula constrói um retrato de personagens, centrando-se na dupla de irmãos e sua vida à margem daquele lugar, cercados de neve o tempo todo. E quando essa estratégia narrativa parece se esgotar, a diretor toma um desvio, e é como se começasse um novo filme, aquele no qual Simon luta por sua sobrevivência.
A fotografia de Agnès Godard - colaboradora de Claire Denis, entre outros – imprime um tom documental à narrativa, valendo-se dos tons neutros e frios da paisagem local, ao mesmo tempo destacando a solidão do pequeno Simon, mesmo próximo de grupos de turistas alegres.
Como em Home, aqui o ambiente pautará os laços de afeto, e o isolamento surge como um requisito para a integridade emocional, física, mental das personagens. E, se o filme soa manipulativo em alguns momentos, a direção precisa de Ursula é capaz de superar o que seria uma limitação.
