O diretor iraniano de origem curda Bahman Ghobadi – presentemente exilado de seu país por razões políticas – é um velho conhecido do público da Mostra Internacional de São Paulo, que já apresentou seus trabalhos Tempo de Embebedar Cavalos e Exílio no Iraque (ele mesmo já visitou São Paulo).
Mais uma vez, ele traduz sua experiência direta com a opressão ao recriar a história de um poeta curdo, Farzhan Sahel (Behrouz Vossoughi), preso por 30 anos assim que deflagrada a Revolução Iraniana de 1979 – por ter feito versos “contra o Islã e o regime”. Não foi a única vítima – sua mulher, Mina (Monica Bellucci), filha de um coronel que servia ao regime do Xá deposto, Reza Pahlevi, também foi condenada a 10 anos.
Fugindo do naturalismo, Ghobadi opta por recriar esta história trágica de uma forma visualmente interessante, que procura reconstituir parte do martírio do poeta na prisão – que sofre torturas ainda mais duramente porque está por trás de seu castigo um homem que tem um problema pessoal com este casal. Trata-se de Akhbar Rezai (Yilmaz Erdogan), um antigo motorista da família de Mina, que foi espancado pelos capangas do pai dela quando se descobriu que estava apaixonado pela moça.
A ênfase nesta história de ciúme e vingança termina se impondo um pouco além do conveniente sobre o filme, esvaziando de certo modo o conteúdo político – ainda que, na abertura, o cineasta o dedique a “todos os presos políticos do mundo”. De todo modo, O último poema do rinoceronte provoca emoções e tem potência visual. E registra uma das mais delicadas interpretações de Monica Bellucci.
