Filho de um rico empresário amazonense, Cosme Alves Neto desviou-se da trilha familiar pela paixão ao cinema. Ao longo da vida, tornou-se um cada vez mais obcecado caçador de filmes, empenhado em sua preservação e difusão. Entre 1965 e 1988, dirigiu a Cinemateca do MAM carioca, sendo duas vezes preso durante a ditadura militar.
- Por Neusa Barbosa
- 28/07/2015
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Incansável caçador e preservador de filmes, Cosme Alves Neto (1937-1996) foi uma luz na escuridão da ditadura militar brasileira. Por sua ação à frente da Cinemateca do Museu de Arte Moderna carioca, impediu o desaparecimento de muitos filmes que os militares consideravam “subversivos” – caso de obras de Serguei Eisenstein e também de brasileiros como Eduardo Coutinho, que ali ocultou o material filmado em 1964 que daria origem ao clássico documentário Cabra Marcado para Morrer, falsamente identificado pelo título A Rosa do Povo.
Espertezas como essas trocas de título hoje nos fazem sorrir, mas a situação naqueles dias não era para brincadeiras. O governo ilegítimo sabia muito bem que Cosme os enganava e prenderam-no e torturaram-no por duas vezes, em 1964 e 1969, pelo crime de preservar a salvo de seus algozes de ocasião uma parte da cultura, setor visto com suspeita e rancor, em que militavam muitos opositores ao regime.
Essa figura de sorriso franco e alma grande ressurge por inteiro neste notável documentário de Aurélio Michiles, que fez justiça ao conterrâneo amazonense não lhe dedicando um filme modelado apenas nas cabeças falantes – que são 34, todas muito articuladas e lúcidas -, mas entremeando as saborosas entrevistas com fragmentos de cerca de 70 filmes, cuja identificação pode tornar-se um jogo lúdico para os espectadores mais cinéfilos.
Filho de um empresário rico e culto, que o acreditava destinado a ser seu sucessor nos negócios, Cosme foi muito cedo desviado por sua paixão pelas imagens em movimento. Deslocando-se para o Rio para estudar, envolveu-se sempre em atividades como cursos de cinema e cineclubismo – numa época anterior à internet, a única maneira de manter contato com raridades da sétima arte. Estava armado o cenário de uma obsessão que se tornaria uma profissão em tempo integral. E Cosme tornou-se uma espécie de equivalente nacional do francês Henri Langlois, o carismático idealizador da Cinemateca Francesa.
Mesmo abrigado num museu, Cosme nunca quis tornar a sua cinemateca uma mera extensão dele. Guardião de um admirável acervo de filmes, que ele buscava em todos os lugares com afinco de arqueólogo, Cosme não era menos obcecado por seu compartilhamento. Se a ideia inicial era buscar as cópias onde estivessem e preservá-las materialmente, o passo seguinte era mostrá-las. Atitude que era o oposto de tempos em que se procurava cercear a livre circulação de ideias, ainda mais aquelas que colocassem em questão o modelo autoritário.
Melhor ainda, Cosme fazia tudo com alegria e protagonizou algumas notáveis aventuras expondo o ridículo de seus perseguidores. Como ele mesmo conta, numa admirável imagem de arquivo, como resgatou de um sofá esquecido, no Cenimar (Centro de Informações da Marinha, na época centro de detenções e tortura), uma agenda que ele mesmo tinha escondido, meses antes, quando fora preso pela primeira vez e que tinha escapado incólume da vigilância de seus carcereiros. Ou quando levou clandestinamente na mala uma cópia do censurado Blá-Blá-Blá (68), de Andrea Tonacci, para ser exibido num festival no exterior.
Por uma curiosa coincidência do acaso, que não deixa de ter ressonância poética, Cosme morreu em 2 de fevereiro de 1996, no mesmo dia que o ator Gene Kelly – que ele muito amava, especialmente em Cantando na Chuva (52). Por conta disso, amigos seus até hoje costumam lembrá-lo colocando o filme para rodar.
