Como todo filme ou romance sobre uma distopia, Expresso do Amanhã tem muito a explicar sobre seu passado e presente, para, assim, apontar um futuro no qual tal ordem seja derrubada – ou, ao menos, haja a tentativa de uma rebelião. A disposição dos sobreviventes no trem equivale ao seu poder nessa hierarquia. Assim, o empresário, inventor de tudo isso, Wilford (Ed Harris), está na locomotiva, de onde não mantém praticamente nenhum contato com os demais, sempre mediado por Mason (uma irreconhecível Tilda Swinton), a única pessoa, fora os guardas, que tem trânsito irrestrito de uma ponta a outra da composição.
Tentativas de frear o aquecimento global resultaram numa Terra congelada, onde os poucos sobreviventes ficam confinados a um trem que nunca para. Presas a estrutura social rígida, as classes inferiores tentam uma revolução.
- Por Alysson Oliveira
- 24/08/2015
- Tempo de leitura 4 minutos
Como os efeitos do aquecimento global estavam tornando a vida na Terra quase impraticável, autoridades de diversos países tentaram uma estratégia química, que não deu certo, e congelou todo o globo – tornando a vida praticamente impossível. Os poucos sobreviventes foram confinados a um mega-trem que circula por esse mundo congelado. Dentro dele, reproduz-se uma espécie de sistema de castas, no qual a esfera da exploração fica nos vagões finais, trabalhando em condições insalubres para que a composição nunca pare, e alimentados apenas com uma barra gelatinosa de proteína.
Esse é o ponto de partida de Expresso do Amanhã, primeiro filme em inglês do renomado cineasta sul-coreano Bong Joon Ho (Mother - A Busca Pela Verdade e O Hospedeiro). Inspirado numa HQ francesa recém-lançada no Brasil – O Perfuraneve, de Jacques Lob, Benjamin Legrand and Jean-Marc Rochette –, não se trata apenas de uma ficção científica ou filme de ação, mas também de um longa político.
A outra peça do jogo é Curtis (Chris Evans, com um visual bastante diferente daquele clean de seu personagem mais famoso, Capitão América). Uma espécie de herói relutante, será ele quem irá liderar a contragosto o levante, que, de certa forma, foi arquitetado por Gillian (John Hurt). O estopim é dado quando crianças desse proletariado são tomadas sem qualquer explicação pela guarda, e levadas sabe-se lá para onde e para o quê.
O objetivo, então, será atravessar o trem, chegar até a locomotiva e confrontar Wilford. Como Curtis diz: “Se controlarmos o maquinário, controlamos o mundo”. Essa alegoria pouco sutil é o que está em jogo na narrativa. Quem tem o poder é quem detém as máquinas, não quem as coloca para funcionar. Nessa jornada até outro extremo, os insurgentes também libertam Namgoong Minsu (Song Kang Ho), homem que projetou todas as fechaduras e sabe como abrir todas as portas.
Nesse momento, a jornada rumo à ponta, Bong faz do seu filme um de ação – muito bem construído com ajuda da fotografia de Hong Kyung Pyo, que valoriza os contrastes entre o exterior do trem, sempre branco e gélido, e o interior, que varia entre o cinza/marrom de uma ponta até o colorido pastel do vagão-escola, onde crianças são doutrinadas por uma professora (Alison Pill), a adorar o espírito corajoso, visionário e empreendedor de Wilford – enfim, a ideologia que mantém o trem sobre os trilhos.
Mas, como dito, há um subtexto político em Expresso do Amanhã, e aí que reside o grande diferencial do filme. Fosse apenas sobre a revolta dos oprimidos e sua tentativa de tomar o poder já seria grande coisa, mas Bong – trabalhando com um roteiro escrito por ele e Kelly Masterson, que muda radicalmente a HQ – parece estar mais interessado nos avanços e contenções de uma revolução.
O que está em jogo aqui é aquilo que as pessoas veem e aquilo que não podem ver. A vida do trem enquanto um sistema necessita do escamoteamento do trabalho daqueles que possibilitam seu movimento ininterrupto. Assim, nenhum dos dois extremos é capaz de imaginar uma vida diferente dessa. A diferença entre Curtis e Minsu é que o primeiro quer mudar o trem, e o outro, uma vida fora do trem.
A trajetória de Curtis pode ser o reflexo da jornada de um revolucionário e de seu impulso – mas os dois chegarão a um limite quando se deparam com o dono do trem. De tão introjetada que está a ideologia dentro da qual cresceram – de que não existe vida fora do trem – o rebelde terá forças para mudar isso? Assim, a distopia de Expresso do Amanhã não é bem o reflexo do nosso presente, mas, sim, da nossa incapacidade de ir além do mundo que nos é dado. Nesse sentido, o filme aponta que a grande revolução, na verdade, não é destruir o trem, mas, apenas, sair de dentro dele.
