Mais do que um documentário, Jia Zhang-Ke – Um Homem de Fenyang, de Walter Salles, é um diálogo entre cineastas. Que não ocorre literalmente, mas na tela, através dos temas que o conduzem.
Nunca antes chegamos tão perto do homem Jia, um camponês na origem, nascido na pequena Fenyang, no norte da China, cidadezinha que foi cenário de seus primeiros filmes – Xiao Wu – Um Artista Batedor de Carteiras (1997) e Plataforma (2000). E, a partir desse contato direto, enxerga-se com clareza cristalina a proximidade entre vida e obra.
Vários de seus colaboradores, amigos e até parentes povoam a tela, conversam com ele, andando nas ruas ou em torno de algumas mesas. Também estão aqui suas antigas vizinhas da casa de infância – velhinhas que lembram divertidas das travessuras do pequeno Jia, cobrando ao hoje quarentão porque ainda não teve filhos. Jia percorre as ruas com saudade e medo de que as paisagens de seu passado simplesmente desapareçam, arrastadas pela voragem do crescimento chinês, pela força do que ergue e destrói coisas belas, ou talvez nem mesmo belas, mas referenciais. Por isso, ele empunha sua câmera e filma tudo.
Esse tema da destruição da história das pessoas pela passagem do tempo ou em nome do progresso tem seu retrato mais vibrante em Em Busca da Vida, Leão de Ouro em Veneza 2006, no cenário da gigantesca hidrelétrica das Três Gargantas.
O tempo todo, Jia é desafiado e inspirado pela realidade. Até com a violência, de que ele tratou incisivamente em Um Toque de Pecado (2013), afastando-se do tom de seus filmes anteriores.
Intercalando as viagens e conversas de Jia com trechos desses filmes, constitui-se um percurso singular, que permite tomar o pulso de um cineasta profundamente conectado com o contemporâneo. E que, não podendo ser mais chinês do que é, mostra-se universal no toque humano e social de suas histórias.
Assuntos mais espinhosos, como o desgosto do diretor por ter a maioria de seus filmes proibidos de circular na China, também são objeto de sua reflexão. Ironicamente, no entanto, até pela presença massiva de jovens numa concorrida conferência do diretor numa universidade, percebe-se o quanto os caminhos clandestinos da internet vêm permitindo que suas obras circulem entre essa plateia juvenil.
Afinal, o filme de Walter Salles afirma o poder da sutileza veemente de um dos mais expressivos diretores do mundo na atualidade. Um dos mais humanistas, também. Poucas vezes se precisou mais de alguém assim como nos dias atuais.
