20/07/2026
Drama

Assédio

Shandurai (Thandie Newton) é uma enfermeira africana obrigada a fugir de seu país, por causa da violência política. Vai morar em Roma, onde só encontra emprego como cozinheira. Entre ela e seu patrão, Jason Kinsky (David Thewlis), começa a crescer uma forte atração.

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Aos 59 anos, Bernardo Bertolucci comprovou que seu faro continuava afiado. O diretor sabe onde encontrar uma boa história, onde colocar sua câmera, tecer imagens para contá-la e onde descobrir uma musa. Em 1996, lançou sua luz sobre a então desconhecida Liv Tyler em Beleza Roubada. Dois anos depois, suas lentes encontraram a zambiana Thandie Newton.

A bela negra nascida na Zâmbia, filha de uma princesa zimbabuana e de um inglês, já é conhecida pelos brasileiros em Missão: Impossível-2. Mas foi Assédio, de Bertolucci, o trabalho que inaugurou a fase mais promissora na carreira da atriz, filmado pouco antes do drama Bem-Amada. (1998), de Jonathan Demme. Ali, ela contracenou com a famosa apresentadora de TV Oprah Winfrey mas amargou um fracasso de bilheteria. O filme foi quase ignorado também nos cinemas brasileiros.

Assédio tem um título um tanto exagerado para a história delicada que conta. Mas este é um detalhe menor deste trabalho intimista, onde Thandie tem a oportunidade de mostrar que é também boa atriz. Dentro de um figurino e gestual que recuperam sua origem étnica, Thandie interpreta Shandurai, enfermeira africana forçada a exilar-se em Roma depois que uma violenta ditadura dividiu seu país e colocou na cadeia opositores como seu marido, um professor primário capturado diante de seus alunos em plena sala de aula.

Para sobreviver em Roma, Shandurai torna-se empregada doméstica num enorme palácio, bem ao lado da escadaria da Piazza di Spagna, um dos cartões postais mais típicos da capital italiana. À noite, estuda medicina. Seu patrão é um outro estrangeiro desgarrado na Itália, só que numa situação econômica e social muito diferente. Pianista, o inglês Jason Kinsky (David Thewlis), herdou de uma tia o belo palácio, povoado de pinturas, estátuas e tapeçarias. As diferenças entre o europeu e a africana são delineadas por Bertolucci de maneira precisa e sutil, mais por imagens do que por palavras. Por exemplo, através dos muitos degraus da escadaria do palácio que os separam. A gradual aproximação entre estes dois mundos é feita por meio de um pequeno elevador. Se antigamente este levava a comida da cozinha no porão para os patrões, lá em cima, agora o rumo inverteu-se. É do quarto de Kinsky que descem primeiro uma flor, depois um anel, para Shandurai, que mora no andar de baixo.

Numa época em que paixões são retratadas no cinema de maneira tão explícita, é emocionante acompanhar a maneira sofisticada como Bertolucci consegue transmitir o nascimento deste amor proibido. O mestre italiano, um dos últimos grandes nomes do cinema em seu país, mostra, assim, que ainda está em grande forma. Lembrando seu passado politizado, seu filme pode ser visto também como uma metáfora sobre um modelo amoroso de convivência entre a Europa e a África, em que o despojamento das riquezas da primeira permite ir de encontro à beleza em estado bruto da segunda. Talvez seja esta a utopia de Bertolucci numa versão para o novo milênio.

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