Entre as muitas lacunas deixadas pela morte trágica de Eduardo Coutinho, em 2014, existe uma muito especial, que tem ligação direta com Sérgio Machado e seu documentário – dirigido em parceria com Fernando Coimbra – Aqui deste lugar, lançado no Cine PE 2015.
Ao final dos créditos, o documentário é dedicado a Coutinho. Na coletiva do filme, Machado explicou que o cineasta havia sido “o maior incentivador” deste seu projeto, que focaliza três famílias beneficiadas pelo Bolsa Família, em três estados diferentes (Rio Grande do Sul, São Paulo e Ceará) e retrata como vivem estes brasileiros que estão no centro das mudanças sociais verificadas nos últimos anos.
Além de incentivador, Coutinho veria o filme, no ano passado. Machado tinha falado com ele por telefone na véspera de sua morte e se dirigia à sua casa quando ocorreu o assassinato dele. “Nunca saberemos o que ele teria dito, o que teria sugerido. João Moreira Salles é quem definiu bem quando disse que ainda por cima tínhamos perdido essa lição de cinema”, lamentou Machado, visivelmente emocionado.
O embrião do projeto esteve na volta de Machado aos locais onde há anos realizara pesquisas para Central do Brasil, de Walter Salles, para um outro projeto, constatando in loco as transformações ocorridas em lugares antes totalmente desassistidos. “É relevante, sim, falar disso, até porque eu não suporto a ideia de um país que não tenha passado por uma catástrofe natural em que as pessoas passem fome”, afirmou o diretor.
Durante um ano, Machado percorreu diversos pontos do país, falando com mais de mil pessoas, recorrendo até ao IPEA para orientação técnica, à procura das famílias que serviriam de personagens-base. Terminou com cinco famílias, que se reduziram a apenas três e cuja escolha nada teve de aleatória: os Barcelos (RS), os Souza Leão (SP) e os Coresma (CE). Segundo o diretor, eram as que melhor refletiam aquilo que ele e sua equipe testemunharam.
Entre o que ele viu, está a absoluta necessidade das pessoas de procurar o benefício. “O valor é tão baixo e a burocracia é tanta que ninguém que não precise realmente disso recorre ao programa”. Saltou aos seus olhos também o papel das mulheres como chefes de muitas das famílias beneficiadas, casos do clã cearense e paulistano retratados no filme.
Uma das coisas que mais emociona particularmente Machado são os jovens. A grande maioria dos que entrevistou sonha em cursar uma faculdade, caso de Natália, a jovem cearense, que também luta para tornar-se cantora. “Só o fato desses jovens brasileiros poderem sonhar já justifica um filme sobre o tema”, frisa o cineasta.
Machado e o produtor do filme, Fabiano Gullane, têm consciência de que Aqui deste lugar despertará as mesmas reações extremadas que têm se verificado no país desde a última campanha presidencial. O cineasta, no entanto, acha que o jogo é esse mesmo: “Este é um filme extremamente pessoal, que está sendo minha resposta a muitas coisas que estou ouvindo e que me agridem. Mas não sou ingênuo a ponto de não prever esse tipo de reações”.
De todo modo, quem for assistir ao documentário de peito aberto e sem prejulgamentos, verá que não se trata de nenhuma uma peça de propaganda, mas sim de um mergulho em realidades sociais complexas, dando a voz a pessoas que muitas vezes não são detetadas pelo radar dos programas jornalísticos - inclusive aqueles que costumam emitir opiniões a granel sobre programas de inclusão social, mas não se dão ao trabalho de verificar in loco como realmente eles operam. Sergio Machado e Fernando Coimbra fizeram isso, deixando as análises e conclusões para quem assiste.
