A história de Cândido tem vocação assumidamente política e dialoga com a história recente do Brasil. É narrada em três momentos dramáticos: em 1964, ano do golpe militar, em 1979, ano da anistia, e hoje. O cenário é uma fictícia cidadezinha do interior do Rio de Janeiro, Burruchaga - um nome que sugere um clima de realismo fantástico e remete às mazelas que atormentam toda a América Latina. Chega ao lugar um muito esperado barbeiro, Joaquim Bolívar (Sérgio Siviero). Militante do Partido Comunista, ele incomoda o coronel local (Othon Bastos), interessado em comprar todas as terras que puder, visando o lucro depois da instalação de uma usina hidrelétrica na região. É um confronto desigual, que tem tudo para dar em morte para o rapaz. A questão é que, como anunciou desde o início um pai-de-santo (Antonio Pitanga), Bolívar tem três vidas para viver, símbolo de um personagem que se modifica num país que nunca parece sair do lugar.
A iminência do golpe de 64 é anunciada em imagens reais, de noticiários em branco-e-preto, mostrando o grande comício da Central do Brasil, imagens de João Goulart, Leonel Brizola, e depois, as tropas na rua. Enfim, momentos que muitos dos espectadores menores de 40 anos nunca terão visto.
Quinze anos depois, Burruchaga sufoca. A usina não foi construída, a cidade esvaziou-se. O salão do barbeiro continua o centro das conversas, mas já se insinua a enorme crise econômica do final dos anos 90. O melhor amigo do barbeiro, o anarquista Adamastor (Jonas Bloch), vive da venda de refugos das casas dos que migraram para as metrópoles. O coronel corrompe um engenheiro americano (Grainger Hines), para conseguir que a usina saia do papel. Nas ruas, Glauber Rocha (Sérgio Santeiro) busca desvairadamente captar com sua câmera na mão o sincretismo religioso e político da Ameríndia.
No terceiro momento, nos dias atuais, é que o personagem de Bolívar sofre sua mais aguda transformação. O antigo militante comunista transformou-se um burocrata de Brasília, que fiscaliza obras públicas e desembarca em Burruchaga, que ainda não tem sua usina hidrelétrica. A decadência econômica impera e uma bandeira rota e desbotada do Brasil simboliza a morte da ideologia e do emprego.
É uma tarefa ambiciosa para um estreante retomar o cinema político, que aliás nunca foi o gênero de maior expressão no Brasil. É de se elogiar essa ousadia e o esforço em compactar tantas nuances e reflexões neste pequeno painel da vida brasileira. Nem todas as intenções foram realizadas, como até seria de se esperar. Um dos problemas é a falta de carisma do protagonista Sérgio Siviero, que atravessa o filme no mesmo tom monocórdico do começo ao fim. Um outro problema é não se ter conseguido criar o clima de realismo fantástico que sustentaria a estranheza de manter personagens que não envelhecem ao longo de mais de 30 anos - essa uma parábola de um país cujos protagonistas e problemas parecem não mudar nunca.
