Nunca será menos do que oportuno um documentário sobre uma figura que somou tanto à democracia e ao aperfeiçoamento social do Brasil como o sociólogo Herbert de Souza (1935-1997), o “irmão do Henfil” que entrou para a letra de uma música que virou o Hino da Anistia na voz de Elis Regina (O Bêbado e a Equilibrista, de Aldir Blanc e João Bosco, estranhamente ausentes do documentário de Victor Lopes).
Betinho, como era conhecido, era muito mais do que o irmão do famoso cartunista Henfil, este outro integrante do trio de irmãos mineiros – o terceiro, o músico Chico Mário – que o Brasil aprendeu a conhecer não só pelo talento, como pela tragédia. Hemofílicos, os três foram contaminados pelo HIV e morreram, um a um, de AIDS, num tempo em que os retrovirais ainda não garantiam o prolongamento da vida dos doentes, como acontece agora. Por conta da luta e do sacrifício deles, o controle público do sangue no Brasil tornou-se uma realidade.
Escapando de várias condenações à morte desde o nascimento – a hemofilia, quando nasceu, era quase isso -, Betinho resistiu bravamente, sendo o último dos irmãos a morrer (os dois se foram em 1988, com diferença de um mês). Sobrevivendo à tuberculose, à perseguição da ditadura, ao exílio e, finalmente, ao cerco da AIDS, Betinho soube transformar cada sopro de vida numa afirmação de lucidez, num sintoma de engajamento pela vida. Não uma vida qualquer, e sim uma vida cidadã, com direito a comida, cultura e beleza para todos.
Depois do exílio no Chile – onde foi ghost writer do presidente Salvador Allende -, no Panamá e no Canadá, Betinho finalmente voltou e tornou-se uma referência inevitável no combate à fome e na luta pela cidadania, como lembra com muita propriedade este documentário, que se apoia numa longa entrevista dele, de 1995, e de depoimentos de amigos, esposas, filhos, colegas.
O que deveria ficar na memória sobre o personagem é a extraordinária capacidade agregadora de Betinho – que pode ser demonstrada pelas presenças no seu funeral. Ele era capaz de inspirar, porque capaz de propor. Nesse sentido, era uma liderança, não subordinado a partidos políticos (embora tenha sido sempre ligado ao PT, que ajudou a fundar, o que o documentário omite). E, por essa independência, era uma referência da sociedade civil, uma figura que faz falta no ambiente carregado que se vive no Brasil hoje. Tomara que o documentário possa ser inspirador também no sentido de compreensão dessa forma de engajamento de que Betinho era capaz.
