03/06/2026
Drama

Capital Humano

O corretor de imóveis Dino Ossola enxerga no namoro da filha Serena com um rico herdeiro a chance de entrar para um reservado fundo de investimentos, comandado pelo pai do garoto, Giovanni Bernaschi. Para isso, Dino pede empréstimo no banco e passa a correr alto risco. Outras tramas envolvendo sua filha e a mulher de Bernaschi, Carla, adicionam outros perigos a esta jogada.

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Conhecido no Brasil pela comédia dramática A primeira coisa bela (2010), o diretor italiano Paolo Virzì confirma-se como um dos principais cineastas da Itália em seu novo filme, o drama Capital Humano.
 
Um dos grandes sucessos do ano passado nas telas de seu país, indicado para representar a Itália no Oscar de filme estrangeiro 2014 e vencedor de vários prêmios, o filme adapta romance do autor norte-americano Stephen Amidon. E o primeiro acerto do roteiro, assinado pelo próprio Virzì, ao lado de Francesco Bruni e Francesco Piccolo, é transferir com sucesso, ou seja, nenhum sotaque, a ação de Connecticut para a região de Brianza, perto de Milão.
 
O próprio Amidon revelou-se, afinal, muito satisfeito com essa adaptação, que introduz mudanças estruturais na história original, alternando pontos de vista sobre os acontecimentos e adicionando um tempero de thriller à narrativa. A ação parte de um acidente, envolvendo um ciclista (Gianluca Di Lauro), numa estrada à noite, numa véspera de Ano Novo. Volta-se no tempo seis meses, para apresentar os protagonistas e revelar seu envolvimento naquele primeiro incidente.
 
O primeiro ponto de vista é de Dino Ossola (Fabrizio Bentivoglio), um corretor de imóveis arruinado mas extremamente ambicioso, que enxerga uma chance de ouro no relacionamento de sua filha, Serena (a ótima novata Matilde Gioli), com Massimiliano (Guglielmo Pinelli), herdeiro de uma família de milionários, os Bernaschi.
Dino reforça esta proximidade insinuando-se junto ao pai do rapaz, Giovanni (Fabrizio Gifuni), conseguindo ser aceito num seleto fundo de investimentos comandado por ele. Para isso, o remediado corretor não hesita em pedir um alto empréstimo bancário, colocando como garantia seu negócio e sua própria casa – sem que a filha ou a segunda mulher, Roberta (Valeria Golino), saibam de nada.
 
A história continua, agora sob o olhar de Carla Bernaschi (Valeria Bruni-Tedeschi), que abandonou uma incipiente carreira de atriz para tornar-se a madame solitária e frustrada. Ao encontrar um teatro em ruínas, ela assume a causa de sua restauração, contando com a ajuda de intelectuais, como o professor Donato (Luigi Lo Cascio).
A terceira versão é de Serena, revelando a real natureza de seu relacionamento com os Bernaschi e também sua aproximação de Luca (Giovanni Anzaldo), que ela conhece por acaso no consultório de sua madrasta, que é psicóloga.
 
A sobreposição de tantos personagens, pontos de vista, detalhes e acontecimentos proporciona a Virzì a oportunidade de demonstrar sua perícia e controle da história, que nunca perde o real foco – o confronto entre o alto valor da especulação financeira e o baixo apreço pela vida e os valores humanos. Não é menos visceral sua direção de atores, todos ótimos e afinados, além da fotografia (dividida entre Jérôme Alméras e Simon Beaufils) e montagem (Cecilia Zanuso), sempre em sintonia com a tensão e gravidade que se procura neste refinado drama contemporâneo – que dialoga com a temática social de filmes como A questão humana, de Nicholas Klotz, A agenda, de Laurent Cantet, e Dois dias, uma noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne.
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