Numa pequena ilha, surgida das águas do rio Inguri, na Abecásia, um velho camponês, luta para plantar rapidamente o milho. Quer aproveitar a fertilidade do terreno, antes que as águas cubram novamente a ilha. Sua neta adolescente o ajuda e é objeto da cobiça das tropas que circulam pela região. Um jovem soldado ferido aparece e vira um elemento de tensão.
- Por Neusa Barbosa
- 16/11/2015
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Um raro representante da cinematografia georgiana, A ilha do milharal, de George Ovashvili, arma seu drama a partir de uma narrativa que aposta poderosamente no discurso visual, retratando camponeses que raramente recorrem a palavras para expressar suas emoções. Este é um acerto evidente na produção, que retrata uma situação de risco, a partir de um reduzido núcleo familiar, localizado numa região em disputa territorial, a Abecásia, que se declarou independente da Geórgia há cerca de 20 anos.
A primeira disputa, no entanto, é a do velho camponês (Ilyas Salman) com a água, de quem ele procura ganhar um pedaço de terra, uma ilha temporária, uma das que surgem, de tempos em tempos, do rio Inguri. Apesar de saber que o terreno será, fatalmente, novamente engolido pelas águas, o velho conhece também o processo de correr contra o tempo e aproveitar sua fertilidade. Assim, planta rapidamente o milho que espera colher antes que sua terra afunde. Tudo é precário ali, sua moradia de madeira, seus poucos objetos. Mas não sua vontade, que parece desafiar o tempo.
A solitária companhia do velho é sua neta (Mariam Buturishvili) que, aos 15 anos, vive processo inverso ao do velho e alquebrado avô. Seu corpo está em plena explosão da adolescência e da sensualidade, que mesmo as roupas largas e simples não conseguem esconder totalmente do olhar ávido das tropas que passam periodicamente por aquela região, palco de uma nunca esgotada guerra civil. Entre a água e o ar, a menina é o símbolo de uma vida que continua fora dali, e que o velho sabe que não poderá guardar por muito tempo.
Soma-se a esta tensão permanente o aparecimento, no milharal, de um jovem soldado rebelde ferido (Irakli Samushia), procurado pelas tropas georgianas. A presença do intruso adiciona elementos de emoções divididas, de medo, desconfiança, mas também de desejo, especialmente da jovem, que evidentemente procura um futuro longe dali.
A maneira como o diretor mistura estas sensações, valendo-se essencialmente de imagens e sons, é um modelo de controle e minimalismo expressivo. Não de outra forma ele conseguiria dar conta de compor um retrato tão eloquente de um lugar assim primitivo, evidenciando seus inúmeros pontos de contato com outros mundos fora dali. Por isso, o filme foge de um registro etnográfico, em que poderia facilmente incorrer, pelo tom ou pela paisagem, encontrando ecos universais.
