Cícero Filho é um cineasta maranhense que se faz a si mesmo, momento a momento, neste documentário que focaliza sua luta para realizar um segundo filme. Contando consigo mesmo e muitas conversas em busca de patrocinadores, ele conseguiu realizar o romântico Ai que vida!, cuja sessão paga numa escola é uma das muitas iniciativas para custear o segundo trabalho, o romance dramático Flor de abril.
O documentário segue o esforço de finalização do novo filme, abalado pelo dilema de ter que refilmar uma sequência dramática, representando a morte de uma criança, em que a atriz apareceu rindo – e o diretor não percebeu na hora. Seria cômico se não fosse trágico, já que dinheiro é tudo que Cícero não tem. Mas ele se vira e consegue refilmar a sequência, o que provoca uma grande crise com sua atriz, que também é cantora e teme o desgaste da interpretação muito dramática para sua voz. Felizmente, tudo acaba bem, pelo menos aqui.
Como fez em Aprendi a Jogar com Você, o diretor Murilo Salles interessa-se pelo empreendedorismo de uma nova classe média ascendente que não tem acesso fácil aos meios para realizar sonhos, como este de realizar um filme. Assim, cada etapa, como tirar certidões negativas de tributos, vira um pesadelo e tem que ser administrada diretamente pelo diretor ou sua mulher.
A comparação com Aprendi a Jogar com Você vale num outro sentido – Cícero, afinal, é um personagem muito mais simpático do que o empresário Duda daquele filme, chorando junto com a atriz no momento em que se refilma a cena da morte de uma criança. Um mesmo problema percorre também os dois filmes: a dificuldade de manejar o retrato do tempo real sem cair no rotineiro. Como os dois documentários tratam de um tema semelhante, talvez tivesse sido mais eficaz juntar os dois personagens num mesmo filme, que poderia ser mais dinâmico e enxuto, mostrando duas faces de uma mesma moeda.
