04/06/2026
Documentário

5 x Chico - o velho e sua gente

Os diretores Gustavo Spolidoro, Ana Rieper, Camilo Cavalcante, Eduardo Goldenstein e Eduardo Nunes fazem uma jornada afetiva pelas águas e pelas histórias das populações ribeirinhas do Rio São Francisco, escolhendo personagens simbólicos dessas comunidades.

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Na beira do Rio São Francisco, ainda em Minas Gerais, a câmera enquadra dois pescadores que contam histórias verídicas, como a de um menino que tomava um lanche e foi engolido por um peixe surubim. Quando o pescador abriu o peixe, a criança foi encontrada comendo bananas.

O conto, com irresistível apelo cômico, compõe os ricos depoimentos que os cinco diretores – Gustavo Spolidoro (de Morro do Céu), Ana Rieper (Vou Rifar Meu Coração), Camilo Cavalcante (A História da Eternidade), Eduardo Goldenstein (O Vendedor de Pára-Raios) e Eduardo Nunes (Sudoeste) – levam à tela em 5X Chico – O Velho e sua Gente.
 

Um documentário humanístico sobre as comunidades ribeirinhas do “Velho Chico”, de Minas (onde nasce) a Alagoas (quando deságua no mar), idealizado por Izabella Faya (que assina também a produção executiva). No roteiro unificado –não se trata, aqui, de cinco curtas –, cada autor escolhe seu estilo e personagens, que vão do cômico ao crítico, do poético ao factual.

Embora seja obra de um quinteto, um ponto notável da produção é seu caráter hegemônico. As narrativas se separam em cortes sutis, acompanhando o curso do rio, mas são complementares, em um trabalho vigoroso de edição. Ganha-se também com a fotografia luminosa assinada pela diretora Heloisa Passos (de Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo), que faz o rio e seu povo cintilarem, apesar de claros momentos de pobreza.  

Mas é nos depoimentos que o filme ganha consistência e muito se deve ao trabalho dos diretores em encontrar pessoas/locais símbolo dos lugares. Mais: a aparente naturalidade com que elas se abrem para câmera denota uma grande intimidade entre os realizadores e entrevistados, o que já é uma conquista inegável.

Esse é o caso do pescador que Eduardo Nunes segue, já na sequência final, desde quando acorda ao lado de sua esposa, em seu quarto. Sem dizer uma palavra, o personagem, o Seu Heleno, é icônico nesta passagem figurativa, cujo resultado é claramente poético e uma reflexão existencial, que se encerra em uma narração em off (voz do ator Claudio Jaborandy) de um texto de Guimarães Rosa.

Curiosamente, o trecho é identificado como parte do livro Grande Sertão: Veredas  no início do filme, mas na verdade faz parte de uma entrevista dada pelo escritor a Günter Lorenz, em janeiro de 1965. Um detalhe que não interfere na beleza deste documento afetivo sobre o Rio São Francisco.   

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