Cachorros estão em alta no cinema de arte/experimental. Primeiro Jean-Luc Godard, com seu delírio em 3D protagonizado por um cão, Adeus à Linguagem, agora, a musicista/artista performática Laurie Anderson em seu ensaio sobre animais, a vida, a arte e o mundo, Coração de Cachorro. Verdade seja dita, o filme da americana não é apenas mais acessível, como também mais interessante.
Esse é o primeiro filme de Laurie em 30 anos que chega aos cinemas – nesse meio-tempo, ela fez produções para a televisão. E a soma das imagens compõe um ensaio sensorial, intimista e impressionista sobre o mundo que a cerca, tendo como mediador sua terrier, Lolabelle, que morreu alguns anos atrás. Seu filme anterior, de 1986, é Terra dos Bravos, que é um documentário musical.
O longa começa com uma animação, numa sequência meio onírica, na qual Laurie conta que sonhou ter dado à luz Lolabelle, depois de ter feito uma cirurgia para implantar a cachorra na sua barriga. Esse delírio já estabelece o tom do filme, que não se limita a animais e música, mas também aborda assuntos como a vida social, tecnologia e política – especialmente depois de um episódio quando o animal é confundido com um coelho, e perseguido por gaviões. Simbolicamente, a diretora liga esse episódio à ameaça que vem do céu e se materializa no 11 de setembro de 2001.
Combinando diversos formatos – animação, efeitos visuais, imagens em 8 mm etc – Laurie constrói uma meditação sobre o nosso tempo, os laços que nos unem e separam, tudo sempre aliado a imagens perspicazes e criativas, músicas experimentais e uma narração constante da própria diretora.
A narrativa também se constrói de forma pouco ortodoxa, num fluxo de consciência feito por associações, que acaba questionando a validade e poder das narrativas. O que podemos contar? E como podemos contar? Indiretamente, Laurie mostra que é impossível acessarmos tudo, construir uma narrativa completa, sempre existirão limitações e contenções.
Por mais que exista poesia no texto, nas imagens, nos sons, a diretora evita fazer um documentário meramente poético e inócuo. A partir de seu amor por Lolabelle, constrói uma reflexão sobre a vida, a morte e o mundo em que vivemos, permeado por tudo isso.
