03/06/2026
Comédia

Um Suburbano Sortudo

Um pobretão torna-se um dos herdeiros de uma herança, mas seus novos parentes não querem que ele a receba. De repente, ele conta com uma inesperada aliada: Sofie, uma das enteadas de seu falecido pai, por quem ele evidentemente se apaixona.

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A certa altura da comédia nacional Um Suburbano Sortudo, Sofie (Carol Castro), uma moça-rica-mas-de-bom-coração, diz ao protagonista, um pobretão que recebeu uma herança: “Eu adoro escatologia”. Ele não sabe o que é, então, a garota explica, e começa um festival de gases. Esse é o tipo de humor que permeia o longa dirigido por Roberto Santucci, cuja carreira decolou em 2010 com a direção do primeiro De Pernas Pro Ar. Desde então, dirigiu diversos sucessos de bilheteria – como Até que a Sorte nos Separe e O Candidato Honesto – todos tendo em comum, além das altas arrecadações, um humor de gosto duvidoso.
 
Rodrigo Sant’Anna, que interpreta o personagem-título, entre outros, é mais conhecido pelos seus trabalhos na televisão (Zorra Total), e tem timing e carisma, por isso não precisava se aventurar no cinema com um material tão rasteiro, cujo roteiro é coescrito por ele, L. G. Bayão e Paulo Cursino. A história é mais do que manjada: sujeito pobre da periferia herda uma fortuna de um pai que nunca conheceu. Seus “parentes” tentam impedir que ele receba a herança. A previsibilidade, no fundo, não é o grande problema aqui – o humor baixo é.
 
E logo na primeira cena, a baixaria dá as caras. Damião (Stepan Nercessian) faz uma investida na sua mulher, que acaba saindo do sofá. Logo chega a empregada (Sant’Anna), que se esfrega nele pedindo favores, em troca de ir para a cama dele. Daí foi concebido Denilson, o protagonista, que ganha a vida como camelô, tem um filho que não assumiu e vive cobrado pela mãe do garoto (Cinara Leal).
 
Quando chega à casa do pai para a leitura do testamento, Damião é o estranho no ninho, e tudo isso é mostrado pela lente do aumento da comédia escrachada ao extremo. As duas ex-mulheres do falecido, Gogóia (Guida Vianna) e Narcisa (Claudia Alencar), assim como o filho da primeira, Luiz Otávio (Victor Leal), não querem que ele receba a herança. Porém, Sofie, por quem Denilson se apaixona, quer ajudar o rapaz.
 
Sant’Anna também interpreta os outro membros de sua família – composta de tia, tio, prima e primo –, todos estereótipos exagerados para efeito de humor, mas que, no fundo, soam como uma visão preconceituosa de classe. Todos os pobres do filme são grotescos e interesseiros – embora sejam “gente boa”. Em uma das cenas, Gogóia diz que quer que as classes C e D ascendam, desde que seja longe dela.
 
Um Suburbano Sortudo também tenta fazer sátira da cultura brasileira, com uma moça engraçadinha que aparece numa festa, cantando à la Clarice Falcão, e um cineasta com sotaque paulista carregado chamado Olavinho Salles (Fábio Rabin), cujo filme “Urubus Ao Redor” foi premiado num festival europeu obscuro. Obviamente, trata-se de uma tentativa de ridicularização do cinema oposto a este praticado aqui – e, por isso mesmo, mais interessante, mesmo não alcançando as bilheterias astronômicas dos filmes de Santucci. 
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