De uma forma bastante direta, Eggers constrói seu cenário com a segurança de quem já passou por uma série de curtas no desenho de produção e figurino. Uma família protestante inglesa, em meio ao caos do novo continente americano, é banida por motivações religiosas aos limites do que é conhecido até então. Uma terra em que nada prospera, costeada por um bosque em que tudo pode dar errado.
Na estilizada atmosfera de mistério criada pelo cineasta, em um vigoroso trabalho de época, o sequestro da criança é o estopim para o declínio na histeria e na loucura desta família. Impotentes frente aos fatos, pouco importam as buscas empreendidas pelo pai William (Ralph Ineson,), que credita a responsabilidade do sumiço da criança a um lobo, ou as súplicas religiosas da mãe Katherine (Kate Dickie).
Thomasin, por outro lado, sobre quem recai a suspeição de negligência, começa a estranhar as atitudes dos três irmãos restantes. Em especial, dos gêmeos Mercy (Ellie Grainger) e Jonas (Lucas Dawson). Embora acreditem que a irmã seja títere do demônio, são eles que conversam com um bode preto, a quem denominam Black Phillip, figura animalesca vinculada universalmente ao diabo.
O fervor religioso da família, colocada à prova, torna o filme um suspense em que a bruxa em si é mero símbolo. A paranoia para encontrar culpados, aqui representada por Thomasin, lembra os julgamentos de Salem, que ocorreriam décadas mais tarde. A fé como poder e o poder como arma da condenação.
O desfecho, muito menos solene do que todo o desenvolvimento da narrativa, carece de envergadura frente ao que se estabeleceu como diálogo com o espectador. Eggers brinca com a trilha sonora, cenografia, fotografia para nos levar diretamente à idade das trevas da ignorância com fé, sem esquecer da construção do terror na forma sobrenatural.
